6. MUNDOS MODERNOS

MUNDOS MODERNOS
Euler Sandeville Jr.
Julho de 2017 (definição da seção março de 2016)

 

Neste sítio a seção Mundos Modernos abrange aproximadamente entre meados do século XIX e meados do século XX, ou cerca de 1848 a 1945. Como sempre insisto, essas datas são apenas uma referência para uma aproximação das discussões, e são atravessadas necessariamente por outras possibilidades de periodização.

Esse período, se aceito com essas referências desses cerca de cem anos, fica demarcado por uma série de revoluções (1848), indicando uma condição social nova, ou em profunda transformação. Publicações científicas colocaram no decorrer desse período as bases de uma nova interpretação do mundo e da natureza, da existência, sob a égide estrita da matéria, do social, do progresso e logo do acaso. A noção de progresso conduz já entrando no século passado marcos difíceis como as duas grandes guerras, a Revolução Russa (1917), as diversas formas de colonialismo, os grandes regimes totalitários, etc.

O período de seu término, com o final da II Grande Guerra (1945), marca um rearranjo internacional e um novo mundo, aquele em que vivemos e que, talvez, esteja mais uma vez às portas de transformações radicais (nem por isso auspiciosas) da experiência, da compreensão e dos afetos. Os desdobramentos desses anos tratados nesta seção dão impulso a partir de 1945 a formas de desenvolvimento econômico, convívio social, educação, consumo, comportamento, explicações do mundo e da história centrados na autoridade da ciência, do artifício, da transformação sem precedentes da natureza sob a égide da ciência, da técnica e da economia.

É nesse período a que chamei “Mundo Moderno”, ou em um um pouco mais amplo do que esse recuando até meados do século XVIII que também poderia merecer o nome, mas sobretudo entre meados do XIX e do XX, que a visão teísta do mundo é recusada como explicação válida para o mundo. Que proposta a desloca e disputa seu lugar? Deus é excluído da história e do conhecimento humano, como bem indica Marcelo Gleiser em um livro com o poético nome de “A dança do universo. Dos mitos de criação ao big-bang”: mencionando um suposto diálogo entre Napoleão Bonaparte (1769-1821) e Pierre-Simon, o Marquês de Laplace (1749-1827), astrônomo e físico francês:

Napoleão: Monsieur Laplace, por que o Criador não foi mencionado em seu livro Mecânica Celeste?

Laplace: Sua excelência, eu não preciso dessa hipótese.1

A ironia ácida dá a medida do novo estado de espírito em formação. Daí porque escolhi para abrir esta seção a transformação significativa nesse período das representações da natureza, introduzindo um tema que terá pleno desenvolvimento na fase seguinte, tanto no âmbito da tecnologia e da ciência quanto das artes, da política e do consumo, como indicado em alguns textos já disponppiveis em “Depois do fim do mundo (depois de 1945)”.

Figura 1. Litho. De vrucht van de Musa paradisiaca L. 1863. G. Sévereyns (Lithograaf). B.H.P. (Berthe Henrica Philippina) Hoola van Nooten (Maker). Collectie Stichting Nationaal Museum van Wereldculturen.

Figura 2. AZARI Fedele (Pallanza, Novara 1895 – Milano 1930): La flora futurista ed equivalenti plastici di odori artificiali. Manifesto futurista. Luogo: Roma. Editore: Direzione del Movimento Futurista. Stampatore: Tip. A. Taveggia – Milano Via Ospedale 1. Anno: 1924 (novembre). Legatura: foglio stampato al recto e al verso Dimensioni: 28,6×23 cm.

Figura 3. Paul Klee (1879-1940), Rosengarten. (Veja ao final do artigo os créditos das imagens).

Sob muitos pontos de vista, poderíamos começar esta seção por volta do Iluminismo, que é um momento crucial para afirmação da ciência moderna, mas também um movimento político. Em ambas as esferas – conhecimento e política, que não estão descoladas -, a noção de desenvolvimento, de racionalidade, de separação entre Estado e religião, estão a passo de uma nova ordem social e política que na escola aprendemos a atribuir de modo muito sintético às subsequentes revoluções Industrial e Burguesa.

A partir da segunda metade do século XIX uma série de eventos parece consolidar fortemente uma visão moderna em formação do mundo e do universo. Em 1848 Friedrich Engels (1820-1895) e Karl Marx (1818-1883) publicam o Manifesto Comunista, e o estudo subsequente de Marx, O Capital, publicado entre 1867 e 1905 marca todos os estudos sociais até o século atual, em 1859 Charles Darwin (1809-1882) publica “A Origem das Espécies” (On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or The Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life), em 1883 Julius Wellhausen (1844-1918) publica Prolegomena zur Geschichte Israels (a Hipótese Documentária), que passa a ser uma referência no criticismo à Bíblia em desenvolvimento desde o Iluminismo, ainda hoje com consequências nos estudos críticos.

Em torno da virada do século, mais um conjunto de trabalhos coloca as bases igualmente radicais de uma nova visão do mundo, da natureza e da existência, que como os anteriores ultrapassam a modernidade e sua contribuição ainda é impactante hoje. Sigismund Freud (1856-1939) publica a partir de 1895 uma série de trabalhos que contribuem para trazer a mente e a subjetividade, o comportamento social, para a disciplina psicanalítica.

A partir da virada do século Max Karl Planck (1858-1947), Albert Einstein (1879-1955) e Niels Henrick David Bohr (1885-1962) revolucionam a física, deslocando a física newtoniana que já não explica uma série de fenômenos observados em laboratórios, demandando novas teorias e experimentos cada vez mais sofisticados. No final da década de 1920 e início dos anos 1930 o físico, astrônomo e padre católico Georges-Henri Édouard Lemaître (1894-1966), propôs a “hipótese do átomo primordial“, que veio a ser conhecida depois como teoria do Big Bang, assim apelidada ironicamente por Fred Hoyle, (1915-2001), um opositor das ideias de um universo em expansão.

Lucien Paul Victor Febvre (1878-1956) e Marc Bloch (1886-1944) em 1929 com os Annales d’histoire économique et sociale contribuem para uma renovação profunda e profícua no modo de compreender a história. Da mesma forma, nesses cem anos aqui indicados, as ciências e disciplinas experimentam os fundamentos do positivismo e logo sua recusa, mas fundam-se como disciplinas autônomas em uma estrutura universitária que define carreiras e relações profissionais, tanto quanto campos do saber. de modo que, por esse caminho, poderíamos continuar indicando exemplos em diversas outras áreas do conhecimento humano.

Da mesma forma, o cotidiano da experiência ocidental é demarcada por invenções que afastam o mundo em formação no século XIX de qualquer outro período da história humana e a complexa rede territorial e comunicacional demarcando novos estilos de vida urbana mediados por inovações técnicas sem precedentes como o telégrafo, o telefone, o cinema, o automóvel, a energia elétrica, o fonógrafo, o elevador e a verticalização das cidade americanas, os raios X…

Do ponto de vista da arte, de saída lembro a atitude de Gustave Courbet (1819-1877), amigo do anarquista Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) e Charles-Pierre Baudelaire (1821-1867), que em 1855 ao ter o seu “Atelier” (no qual estavam retratados Courbet e Baudelaire) recusado, realiza uma exposição independente com 40 quadros seus, em uma proposta de desmoralização da hierarquia oficial da academia e dos salões.

Lembremos ainda que entre 1853 e 1870 o Barão de Haussmann (1809-1891) foi prefeito de Paris, conduzindo uma série de obras de modernização que marcaram a Cidade Luz. Justamente nessa cidade em obras é que se desenrolará o impressionismo, que considero como a “dobradiça” na história da arte. É esta cidade em intensa agitação, que vê os anos de 1848 e 1971 assinalados por duas revoltas populares, tendo Courbet participado ativamente da última.

A visão inquieta e boêmia, que já se valorizava nos românticos, e a valorização do artista por sua originalidade e atitude, começa a ganhar uma nova dimensão, que atravessando os impressionistas, desemboca no experimentalismo agônico da arte moderna, não só em sua revolução estética, em uma era de revoluções e desencantos. O componente comportamental doravante acompanhará a ideia de artista, mas encontrará lugar em todas as esferas da vida social.

 

__________________________________________

NOTAS E BIBLIOGRAFIA CITADA

1 GLEISER, Marcelo. A dança do universo: dos mitos de Criação ao Big Bang. Sao Paulo: Companhia das Letras, 1997

 

 


cite este artigo:
SANDEVILLE JR., Euler. “
Mundos modernos” (2017). Disponível em https://poeticasdapaisagem.wordpress.com/mundos-modernos/ com acesso em XX/XX/201X.

Consulte a LICENÇA DE USO na seção ANEXOS ao utilizar material deste blog.:


uma proposta de euler sandeville

IMAGENS DE ABERTURA DESTA PÁGINA

Figura 1. Litho. De vrucht van de Musa paradisiaca L. 1863. G. Sévereyns (Lithograaf). B.H.P. (Berthe Henrica Philippina) Hoola van Nooten (Maker). Collectie Stichting Nationaal Museum van Wereldculturen.
This file is licensed under the Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported license. Attribution: Tropenmuseum, part of the National Museum of World Cultures. Disponível em https://commons.wikimedia.org/wiki/File:COLLECTIE_TROPENMUSEUM_De_vrucht_van_de_Musa_paradisiaca_L._TMnr_3401-1692.jpg acesso em 14/03/2016.

Figura 2. AZARI Fedele (Pallanza, Novara 1895 – Milano 1930): La flora futurista ed equivalenti plastici di odori artificiali. Manifesto futurista. Luogo: Roma. Editore: Direzione del Movimento Futurista. Stampatore: Tip. A. Taveggia – Milano Via Ospedale 1. Anno: 1924 (novembre). Legatura: foglio stampato al recto e al verso Dimensioni: 28,6×23 cm.
O sítio não indica restrição de cópia à imagem. Disponível em http://www.arengario.it/opera/la-flora-futurista-ed-equivalenti-plastici-di-odori-artificiali-manifesto-futurista-4767. Acesso em 02 de abril de 2017.

Figura 3. Paul Klee (1879-1940), Rosengarten. Disponível em https://commons.wikimedia.org/wiki/File:M%C3%BCnchen_Lenbachhaus_20130628_(44).JPG?uselang=fr. Acesso em 05 de julho de 2017. “Ce fichier est disponible selon les termes de la licence Creative Commons paternité 2.0 Allemagne.Public domain. Cette œuvre est également dans le domaine public dans tous les pays pour lesquels le copyright a une durée de vie de 70 ans ou moins après la mort de l’auteur. La position officielle de la Fondation Wikimedia est que « les représentations fidèles des œuvres d’art du domaine public en deux dimensions sont dans le domaine public et les exigences contraires sont une attaque contre le concept même de domaine public ». Pour plus de détails, voir Commons:Quand utiliser le bandeau PD-Art. Cette reproduction photographique est donc également considérée comme étant élevée dans le domaine public.

 

 

Anúncios