BREVE HISTÓRICO DAS ESTRATÉGIAS DE ESTUDO DAS PAISAGENS
docente responsável: Euler Sandeville Jr.

 

Neste texto indicaremos apenas a lenta construção de projetos do Núcleo de Estudos da Paisagem na sua seleção territorial e temática. O trabalho de Livre Docência (Sandeville Jr., 2011) apresenta até 2010 as pesquisas e estratégias do Núcleo de estudos da Paisagem no grupo de pesquisa PAISAGEM, CULTURA E PARTICIPAÇÃO SOCIAL. Lembramos que há uma outra frente de trabalho, que atravessa esse e o grupo de pesquisa PAISAGEM, CIDADE E HISTÓRIA, cujos procedimentos são de outra natureza.

A partir de 2002 a pesquisa docente adotava como área de investigação a Reserva da Biosfera do Cinturão Verde de São Paulo, intentando ter como foco prioritário a região norte, no recorte da Serra da Cantareira/Juqueri/Jaraguá e do Alto Tietê Cabeceiras. Não é um trabalho que se possa fazer em um curto prazo, e sem uma equipe de colaboradores.

Mas essa história não começou por aí. Embora não vá aqui fazer uma reconstituição de um longo percurso, a adoção de áreas de estudo passa tanto por experiências anteriores, quanto por desejos e afinidades de pesquisadores que vão se agregando, quanto por uma intencionalidade de construção do conhecimento. Para revelar um pouco a intencionalidade desse processo, relatarei algumas experiências, que devem ser agregadas às dos outros parceiros na jornada do Núcleo de Estudos da Paisagem.

Tiveram em mim um impacto imenso o casario da ocupação periférica sobre os morros a partir de percursos realizados por volta de 1985-1986 na zona sul, atravessando paisagens desde a área central, passando por Santo Amaro, até locais cheios de energia e com uma beleza própria, os lugares peculiares e inesperados em Cratera, Marsilac, Colônia etc., travessias de balsa, o casario de autoconstrução pelos morros postos assim em contraste com as áreas verticalizadas e mais estruturadas dos jardins e do centro, a floresta pujante além desse longo espraiamento da cidade. Todas as questões fundamentais, da experiência e da vivência, da forma, da criatividade, do cotidiano, da liberdade de expressão, que havia buscado na arte, encontravam ressonância nessa paisagem abandonada pela “cidade oficial”, invisível para a maioria dos paulistanos, recusada, embora tão cheia de energia, criatividade, luta pela vida.

Esses transeptos por diversas configurações urbanas, convergindo em paisagens naturais insuspeitadas até então em São Paulo (para mim), proporcionavam a compreensão empírica da estrutura urbana e de seus imensos contrastes sociais e espaciais, e colocavam a paisagem como um campo fascinante de estudos e aplicação. As qualidades estéticas e a vitalidade dessas ocupações periféricas, a diversidade de situações do urbano e das áreas ainda preservadas, os contrastes intensos, me sugeriam a possibilidade de um resgate, por meio da paisagem, do sentido que buscava pela arte e que revelava (para mim) um esgotamento em sua captura entediante pelas instituições. Os transeptos realizados pela paisagem paulistana possibilitaram uma experiência estética, mas dotada de uma intencionalidade intelectiva na qual a paisagem compareceria então em um novo patamar.

Embora todas as experiências humanas tenham uma dimensão estética (mesmo que distraída), refiro-me a uma experiência excepcional, como um momento de duração intensa (de alguns segundos a meses, à revelia de qualquer mensuração cronológica), de uma síntese sensível que transforma a percepção e intelecção de vários aspectos da vida. A criação do Núcleo de Estudos da Paisagem não existiria sem essas possibilidades que obtiveram um programa em 2002 na Espiral da Sensibilidade e do Conhecimento. Costumo referir em minha vida – até aqui – a cinco experiências estéticas fundamentais (que são crescentemente existenciais): com a luz (nos anos 1970), com a paisagem (cerca de 1985), com as proporções e a harmonia a partir da paixão (por volta de 1997), com o tempo (a partir de 2006), com os limiares (“as formas da morte e as possibilidades da vida” em 2010). Todas elas ampliaram meus horizontes para outros aspectos da vida, irradiando de uma percepção inicial, que preenche de novos significados outras esferas da percepção e da sociabilidade, da relação intelectual e afetiva com o mundo.

Após um tempo e intensas atividades docentes, em que procurava formatos de aproximação da universidade com o ambiente em que se insere, de uma capacidade para intervir no real e por ele ser transformado, igualmente decisivas para o que fazemos hoje no NEP (experiências em supletivo em universidades (1984, 1986-1991, 1999), e de integração universidade-setor público, 1989-1990) um conjunto de transeptos novos se impôs. Geralmente, em uma outra escala territorial, certamente plenos de uma condição estética fundamental, e portanto cognitiva. Os principais percursos novos foram: São Francisco (1989), cidades turísticas no interior de Goiás (1999), o perímetro da Chapada Diamantina (1999), fui pela primeira vez para a Europa (2000), percorrendo por um mês e meio, sem destino e ao acaso dos acontecimentos, Londres, Paris, Veneza, Florença, Siena, Pisa, pequenas cidades, Roma, Belgrado (então sob o embargo das Nações Unidas, que me mostrou uma outra Europa), várias cidades de pouco atrativo turístico no norte do Paraná (2001), vários bairros periféricos em São Paulo, retomando a experiência na zona leste e sul (1986-1987), agora nas bordas da Cantareira (1998-2002), e outros Estados, como o litoral do Rio, Espírito Santo e sul da Bahia (2002), seguindo da foz à nascente do Jequitinhonha, com um desvio pelo Araçuaí (2002), sendo esta a experiência que permitiu a convicção para dotar a direção de um grupo de pesquisa.

Novamente, as paisagens e as formas de sua apropriação me propunham um vocabulário, uma linguagem mesmo, formas de sociabilidade fascinantes nas quais seus significados se embrenhavam em mim através das pessoas. Partilhei novos modos de vivenciar a paisagem com as pessoas que entrecruzava no percurso, algumas presentes até hoje. Elas me ensinaram a ver de um outro modo, mais amplo. Não havia uma distância epistemológica a nos definir; eu é que aprendia com elas. Pessoas, umas diante das outras, isso o que nos definia. Não eram apenas viagens, eram parte de uma indagação existencial e de significação da produção intelectual, precisando encontrar nova vitalidade indagativa e inserção no ambiente acadêmico da universidade pública que começava a conhecer não mais como pesquisador, mas como docente (1986-1987; 2001-…).

Concebi assim a paisagem não apenas de um processo sensível, mas também como uma possibilidade de estudos, que proporciona a aproximação de questões da arte ao urbano como espaço de vida coletivo e, ao mesmo tempo, subjetivo, passível de ser compreendido, estudado. Abri-me a mundos dotados de vida e força própria, plenos de vitalidade, tratados como invisíveis, apesar da sua eloquência como fato social, como arquitetura da cidade e paisagem urbana. Essa possibilidade de tornar a paisagem generosa ao nosso aprendizado nos traz a responsabilidade de responder do mesmo modo em nosso desejo de aprender, e só assim a paisagem merece ser estudada pela perspectiva do arquiteto urbanista, do geógrafo, do cientista, do artista, levando-nos a um desafio intelectual novo em que o desejo de ensinar seja o de aprender.

Disso decorreu a postulação da Espiral da Sensibilidade e do Conhecimento e do entendimento das paisagens como experiências partilhadas. Era necessário agora verificar a base empírica da proposição de estudo das paisagens como experiências partilhadas. Com a criação do grupo de pesquisa em 2003 e com o ingresso de pós-graduandos e graduando no Núcleo a partir de 2004, movidos por um coração inquieto e aberto, isso foi possível. Até 2008, além das pesquisas que dão conta de uma ampla aproximação das questões da paisagem, foi possível iniciar uma série de experimentações colaborativas com parceiros externos à universidade associada muitas vezes a experiências didáticas. Envolveu nessa primeira fase estudos em São Paulo em áreas periféricas, no interior e no litoral do Estado de São Paulo e em áreas rurais ou tradicionais no interior do estado de São Paulo e em outros Estados, em Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina.

A partir de 2009, era interessante pensar uma nova estratégia de investigação dessa base empírica, que permitisse estabelecer um vínculo e uma cooperação no entendimento da base territorial, o que foi feito adotando-se a Região Metropolitana de São Paulo como área prioritária de estudos do grupo, sendo que a partir de 2009 as frentes de experimentação colaborativa e didática estabeleceram um diálogo crescente com os pesquisadores em suas áreas de pesquisa. Por volta de 2011 os avanços já mostravam o acerto dessa estratégia tanto na dinâmica interna do grupo quanto na discussão da cidade, sugerindo a possibilidade, de fato adotada, de uma maior convergência das pesquisas no grupo, a par de uma maior capacidade de ação do grupo com parceiros externos.

clique aqui para acessar arquivo pdf com ações entre 2002 e 2010.

Essa estratégia permitiu adotar frentes temáticas de estudo, sendo a que possibilitou uma maior investigação do Núcleo na região de mananciais ao sul. Das experiências acumuladas nas disciplinas e nas ações participativas – em especial Atibaia, Pirajussara, Heliópolis, Brasilândia – e da integração das pesquisas em grupos de estudo colaborativo, em especial na área de mananciais, foi possível pelas condições que se colocaram na região de Perus avançar em um projeto antigo do Núcleo, e inclusive ampliá-lo para uma intencionalidade além da nossa: a ideia da UNIVERSIDADE LIVRE E COLABORATIVA. Inicialmente a entendíamos como o oferecimento de disciplinas de graduação e pós organizadas conjuntamente com parceiros externos e ministradas nessas localidades, integradas se possível com pesquisas e projetos de formação de professores, lideranças etc. Novas condições surgiram com os trabalhos realizados com professores, artistas jovens e lideranças de Perus a partir de 2012.

Com isso, direcionamos as prioridades de investigação para a região noroeste, definida como região Cantareira/Juqueri/Jaraguá, que já estava na origem das intenções do grupo em 2003, mas apenas as pesquisas na Brasilândia haviam prosperado com o trabalho de Cecilia Angileli e de modo muito tênue no Juqueri. As pesquisas na região do Alto Tietê também estiveram no foco do Núcleo em seu início, mas igualmente não conseguimos avançar como esperávamos. No entanto, os trabalhos na Área de mananciais a partir de 2008 e na região noroeste a partir de 2012, com os antecedentes na Brasilândia que infelizmente não tiveram continuidade, desenham o foco pretendido para o grupo de pesquisa Paisagem, Cultura e Participação Social. Complementarmente, mantemos um interesse prioritário de pesquisa na região centro-oeste. Os estudos e vivências têm indicado a necessidade de compreender, ao menos em alguma medida, interações escalares em um âmbito regional, de modo que o vetor noroeste e oeste da Macrometrópole entra em nosso horizonte de entendimento, trazendo interesse de pesquisas na região Itu/Sorocaba/Jundiaí. Isso não impede pesquisas em outras regiões, desde que contribuam para o entendimento das questões com que estamos nos defrontando, mas o foco no início de 2014 está descrito acima.

A adoção de recortes espaciais apoia-se em uma estratégia de construção do conhecimento e da ação institucional do grupo, deixando de ser apenas áreas de aplicação. Trata-se efetivamente de uma estratégia que permite avançar gradualmente os trabalhos. Ao verificar no portal espiral.fau.usp.br as áreas em que já foram ou estão sendo desenvolvidas pesquisas e atividades didáticas, tenha em mente que um recorte territorial não é apenas uma área de estudo entre outras. É mais do que uma opção metodológica e distanciada. Decorre de opções vitais, de experiências vividas, de desejos e de possibilidades cognitivas muito ricas, que se realizam no diálogo intenso com outros viventes no mundo, em um crescimento que exige tempo. É um espaço de descoberta da vida.

 

aprender com a cidade, aprender na cidade


para citar este artigo:
SANDEVILLE JR., Euler. “Núcleo de Estudos da Paisagem: Breve Histórico das Estratégias de Estudo das Paisagens”. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo. Disponível em https://poeticasdapaisagem.wordpress.com/2017/11/08/nucleo-de-estudos-da-paisagem-breve-historico-das-estrategias-de-estudo-das-paisagens/ com acesso em XX/XX/201X.

Consulte TERMO DE USO/IMAGENS disponível na seção SOBRE


 

 

 

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