MANIFESTO ESPIRAL
versão 2.5 (2003/2008 jan-dez)
Espiral da Sensibilidade e do Conhecimento
Euler Sandeville Junior

 

Espiral: da Sensibilidade, Conhecimento, Liberdade  é uma condição, uma esperança, um desafio íntimo e uma forma de propor a ação. É a necessidade de uma construção poética e significante na relação com o ambiente e os outros, possível apenas em ação.

 

É criar estratégias alternativas em ambientes e condições complexos e em rápida e intensiva mudança, de esgotamento do tempo pela multiplicação esfacelada da demanda e da atração contínua que as possibilidades assim exercem. É perceber o tempo, contra o efêmero e o imediato, que vão deslizando sobre a duração, tornando esta invisível, ao fazer parecer tudo transitório. É perceber múltiplas temporalidades entre nós, e tempos que não vivemos mas recebemos por herança.

A ideia de descentramento e transitoriedade que, para muitos, atravessa a cultura contemporânea, estaria demandando a construção de referências adequadas para confrontar-se e relacionar-se com o novo. É impensável o novo sem o velho e, portanto, que o velho, ou o antigo, não esteja no novo. Não há novo que não acolha o horizonte de sua obsolescência aninhado em sua novidade, e não há obsolescência sem permanência e, portanto, ressignificação.

Os problemas a serem enfrentados não se constituem só de superação, mas também de continuidade. O novo está no que já existe. Trata-se, portanto, de reconhecer que valores e processos constituem um no outro, e que contradições essa constituição engendra, que valores e qualidades estão em jogo, seja na mudança, seja na persistência. E como nos constituímos nela, o que selecionamos, o que não evitamos. Não podemos trabalhar com o que não percebemos, embora seja constituinte do que percebemos e, portanto, de nossa experiência. Nossa ciência nunca é puramente teórica, mas comprometida pelas práticas e por seu processo de formalização.

Como aprender a pensar e a opor-se às situações estruturadas ou inesperadas de incorporação de valores por aquilo e aqueles que de fato os negam? Como aprender a lidar com relocações quase extáticas das heranças e memórias, roubando-as de nossa percepção das transformações em que existimos? Daí, imagina-se a proposição de ações alicerçadas em percursos experimentais e críticos em relação aos próprios valores e percepções, inclusive a memória, bem como de cooperação e participação, abrindo-se a desdobramentos coletivos por contágio imprevisível.

Se em alguma medida esses argumentos forem válidos, demanda-se pensar os processos de identificação e a capacidade de invenção operativa. Estamos prejudicados pela distração por formas banais, tecnologicamente elaboradíssimas, e pela obsessão de uma prática ininterrupta e simultânea, cuja finalidade é manter tanto em atividade permanente de conquista, quanto em ansiedade de perda. Tal problemática, se minimamente for real, já justifica nos re-organizarmos para pensar e atuar.

A proposição decorre do desejo de experimentar com autonomia propostas de trabalho que tragam contribuições para coletivos e indivíduos, pessoas empenhadas na melhoria do mundo em que vivemos, na superação de suas injustiças, sobretudo para uma grande maioria da população que suporta as riquezas sociais (materiais e culturais), sem delas usufruir nas mesmas condições. O processo ao qual cumpre questionar e opor-se se constrói como uma cultura de brutalidade, que dilapida os valores humanos, que se impõe sobre um conhecimento rico e diversificado, extremamente criativo e vital. Devemos nos opor animados por relações de amizade, solidariedade, ancorados em um trabalho dedicado e ético.

Brasileiros que somos, nosso país em 2005 já era escalado como a décima economia do mundo (com base no PIB) e considerado em 2004 o sétimo mercado consumidor no globo, embora apenas 33% da população brasileira se incluía como “consumidores” segundo os padrões adotados. Além do evidente erro em categorizar as coisas por esses parâmetros, o fato é que caminhando pelas nossas cidades, essa riqueza não é perceptível, e a indiferença a essa condição chega a ser tal que pode fazê-la parecer natural. Sob a displicente indiferença, se estabelece um pacto de conivência, que é escolha.

O que está registrado nas paisagens são as lutas, as heranças e esperanças, mas também a dificuldade, a miséria, o destrato da qualificação ambiental, a dilapidação dos recursos e valores humanos1 e naturais, sobre a qual se assenta essa riqueza invisível para a maioria das pessoas. Submetidas a condições barbaramente desiguais de participação nos benefícios considerados conquistas básicas para a condição humana, a esmagadora maioria dos brasileiros (e dos terráqueos) desenvolve-se à margem das notáveis instituições de ponta que abrigamos.

Os ambientes de trabalho refletem essa face da cultura. Escamoteadamente impessoais, desvinculados do entorno em que se inserem, tanto fisicamente quanto por seus objetivos, são pouco criativos em termos de satisfação pessoal. Por vezes, são infantilizados por técnicas motivacionais e de gestão que aproximam as relações de trabalho dos games, mas controlam-se cada vez mais pela introjeção normativa2 e pela multi polarização da externalidade3. Tudo isso parece coerente e civilizatório, mas aponta para a lógica a que se refere, a finalidade de produzir para si mesmo, de adquirir e aumentar poder, seja político, seja de consumo. Para mover-se e ascender nesse ambiente, as pessoas se preparam e competem, por todos os meios, inclusive desleais, e em nome de verdades ou ideais que não praticam, fazendo parecer que a compensação material, simbólica ou política a receber, sempre insuficiente para repor o desgaste que custou, é justificativa bastante.

O quadro institucional que sustenta tal condição organizacional e de valores é complexo e contraditório. Podemos discutir todo o sistema educativo entranhado nessa condição, no qual se internam humanos pela maior parte de sua vida, em preparação ou aprimoramento para o mercado, ou seja, as instituições e, cada vez mais, empresas (públicas e privadas) de ensino. Mas seria um erro reputar a esse sistema autonomia. É necessário vê-lo em conexão com todo o sistema político, apoiado em instituições governamentais, partidos políticos e seus vínculos com grupos empresariais, lobistas de todo gênero, movimentos sociais organizados, entidades de classe que, no geral, são uma forma de fatiar uma parte dos negócios ou do acesso ao poder para seus condutores.

São essas algumas das mesmas instituições que abrigaram a esperança de produção de um saber e uma ação social, mas, contraditoriamente, sustentam hoje valores coletivos que se tornam cada vez mais sombras das ideias que os geraram e palavras esvaziadas de qualquer prática coerente. Nesse quadro de ensimesmamento, a descrença e desilusão na possibilidade de mudanças se tornam os maiores aliados, e meios de fazer aliados, da corrupção, da violência, da indiferença, do ganho pessoal fácil e a qualquer custo, que perpassa, a seu modo, todas as faces sociais.

Tais condições e contradições, tal potencialidade e dilapidação de possibilidades, tal negação do que guardamos como valores, a distância que desses valores se estabelece no que praticamos sob o signo da urgência e de uma necessidade difusa, bem como de ameaça “pressentida”, nos mantém em um estado de ansiedade. Estamos submetidos a um estado de urgência de desempenho permanente, para ganhar, para não perder. É interessante pensar como construir um tempo livre da tirania e do assombramento da urgência.

Essas condições animam a pensar, a criar, a procurar outras formas. A decidir enraizar em outras possibilidades, ainda dentro desses ambientes sobre os quais pesa simultaneamente o potencial das oportunidades e o desvario da injustiça e da violência. Falar isso, obviamente, indica uma escolha, não só uma insatisfação com essas categorias, mas o resgate de vínculos e princípios que acreditamos base válida para as ações. Talvez esses vínculos já não sejam mais tão claros, necessitem ser reconstruídos e de fato estão sendo. Nos parece necessário redirecionar essa reconstrução, indicar outras possibilidades de construção.

Daí a associação com outros decorre do desejo de criar novas oportunidades de trabalho, convivência e ação enraizadas em uma outra lógica. De possibilitar uma outra perspectiva para a produção, para a realização pessoal, para o lúdico. Não se trata de revolucionar, de fazer algo que não foi feito, mas de nos associarmos aos que desejam transformações que representem uma qualidade de vida mais efetiva e fundada no potencial que pensamos mais positivo de nossa humanidade.

Temos como principais questões a valorização das sensibilidades, da produção coletiva de conhecimentos a partir de experiências partilhadas com outros parceiros, valorização de saberes, da afetividade, da paz, da pesquisa, da alegria do fazer e estar, da ação crítica, solidária e transformadora.

Nas ações considero importante abraçar perspectivas disciplinares e não-disciplinares. Ainda que tenha considerado que pudessem ser fundamentalmente inter ou trans disciplinares – parece-me necessário, para avançar nesses propósitos, incluindo-as, ir além dessas possibilidades, reconhecendo um âmbito factível e relevante no não-disciplinar.

Não se trata de menosprezar um ou outro. Trata-se de potencializar suas possibilidades, colocando em primeiro plano a vida. Uma abordagem não-disciplinar pode fazer-nos usufruir das contribuições intra, inter e trans (isto é, disciplinares), na medida em que pode acessá-las sem conter-se nelas, e permite também usufruir da liberdade, da intuição, da experiência direta, do conhecimento comum, do incerto, do procedimento construído em ação e acontecimento, mantendo-se em indagação na e da relação com o mundo, e não apenas da verificação da pertinência metodológica, institucional, ideológica4. Uma abordagem disciplinar contemporânea, necessariamente trafega pelas fronteiras convencionais do institucional e do mercado (por serem coisas que não são estanques), para construir sua proposição de conhecimento. Mas isso não basta, qual conhecimento interessa? Talvez apenas aqui, e desmistificando as facilidades das bandeiras ideológicas e dos ativismos, a política possa se propor de forma relevante, no âmbito do que se trata aqui.

Pensar e agir5 são coisas correlatas, mas em nossa cultura estabeleceu-se um inexplicável fosso, criando a camuflagem de uma cisão. Camuflagem sustentada pelo esvaziamento de sua articulação conceitual, com conseqüências fáceis de imaginar no campo ético das práticas.

O esvaziamento vai bem além das dificuldades de articulação conceitual e é também do significado das palavras, o que implica tornar ambíguos os conceitos, que passam a moldar-se a qualquer discurso (cativos de qualquer intencionalidade). Isso gera uma zona de esquecimento ou entorpecimento e consenso: manipulação. Procedimento que abre uma avenida para, em situações de oportunismo, abrigar o cinismo, a indiferença, a ambição a qualquer custo, a justificativa de qualquer decisão, ao esvaziar as palavras de seu sentido e do compromisso que implicam6. O sentido das palavras é exposto no compromisso e experiência dos quais emergem e para os quais apontam. E é justamente na experiência que reencontramos a poética, a imaginação, a transformação. O sentido efetivo do que fazemos. O comprometimento do valor das palavras é também o comprometimento da potencialidade po-ética na construção do mundo.

Assim, penso que a razão não é dada por um objeto ou bandeira a serem defendidos, e que podem existir, mas pela atenção aos processos subjetivos e sociais que os estabelecem, em suas motivações, finalidades, experimentação, ou seja, ao modo como se constroem as relações em ação. O resultado não é o produto, é a qualidade experimental e a confiabilidade do processo que o constrói. Os princípios que animam essa busca são delineados, mas sua validade só é possível de ser pensada e aprimorada nas contradições das práticas, o que demanda tempo para seu entendimento. Assim, nossa razão está na atenção aos processos subjetivos e sociais que estabelecem nossas ações, nas motivações e finalidades, na experimentação.

A Espiral constitui-se então como uma ideia que procura inserções que não tenham como determinante razões institucionais, normativas e de mercado, atuando a partir de valores cooperativos de convivência social e de transformação do ambiente comum. Promove ações, vivências, ambientes, que visam estabelecer uma abordagem crítica da cultura contemporânea e ações efetivas em programas de sensibilização, criação e discussão da cultura multiplicadores, voltados para a valorização humana7, ambiental, e da herança traduzida pela paisagem em seu vir a ser. Viver significa para mim muito mais do que ascender e possuir, é sentir e construir significados e poéticas e deles ser consciente, é atuar em um patrimônio e uma herança coletivos que cumpre manter, transformar e realizar.

A busca é de criação, reelaboração de percepções e representações, de pesquisa e debate da cultura, reconstrução de conhecimentos e práticas, a partir de processos de investigação e temáticas de atuação. Não se trata de menosprezar conhecimentos e formas preexistentes, e sim de olhá-los com atenção, confrontando-os com a herança em que se construíram, com a situação presente em que se oferecem e com a situação sonhada possível, mesmo que improvável. Postura crítica não significa rompimento ou ausência de compromissos, nem um jogo de palavras que tudo explica e de tudo se exime. Significa, aqui, construir formas de conhecer e relacionar.

Pretende-se, nesse sentido, a construção coletiva e compartilhada de conhecimentos, a partir da convivência, da experiência vital e da investigação (noção que inclui a pesquisa, mas a amplia). Essa “trajetividade” de saberes, que nos renova com aqueles com os quais iniciamos cada caminho, exige e possibilita novas dimensões, reconstitui significações, e atribui um significado social a essas ações. São múltiplas possibilidades, na vida, que se desdobram por contato. A dimensão lúdica, desinteressada, amorosa, ética e afetiva entre os participantes em contato pessoal, é fundamentalmente transformadora, para não dizer revolucionária. É parte do sentido que esperamos buscar quando falamos de sensibilidade, conhecimento, construção conjunta.

Mas como? Para nós, trata-se de estabelecer experiências da intensidade pessoal, movendo-se através das fronteiras das sensibilidades e dos saberes, valorizando-os no contato com outros. Trata-se de resignificar a passagem do tempo, não como uma sucessão em ritmos alucinantes e absorventes, mas como os tempos da própria vida, quando a ela se reconhece o tempo necessário de realização, permitindo-se ouvir e sentir. Trata-se de algum modo de escapar ao tempo recente, sem espessura, pronto, que interessa à produção econômica e ao tempo instantâneo que interessa à disseminação da informação e da publicidade. Trata-se de conceber experiências coletivas e individuais, poéticas e vivências urbanas e em ambientes naturais, interfaces com outras experiências, processos de criação artística e de expressão espontânea coletiva ou individual, construção comum e interfaces de conhecimentos com ou sem a obrigatoriedade dos parâmetros disciplinares e normativos, ações sociais com outros comprometidos com a melhoria das condições de vida, educação, saúde, trabalho, mas também de amizade, fruição, realização, prazer.

Trata-se da liberdade de pensar e experimentar. De reconhecer os próprios limites e doar-se. Trata-se da vontade de contribuir com outros que também querem crescer e contribuir com outros. Aprender a amar. Reaprender tantas coisas, ouvir tantos sons fundamentais em meio a um contínuo de informações desarticuladas que embaçam o entendimento.

Não serão diferentes as ações, se o sentido de nossas práticas não diferirem! E para tanto é necessário um aprendizado coletivo e uma disposição individual, que se devem buscar nas razões e natureza das práticas antes que em projetos, para que neles, de fato, venham a ser encontradas. Ações e suas razões devem decorrer de uma filosofia, princípios e compromissos que se busca experimentalmente aprimorar e conferir. Há uma noção que nos é preciosa antes das ações, mas que só nelas pode ser clareada. Não se poderá dizer que se atua de modo diferenciado, se tudo o que fizermos for esvair-nos em palavras. Não se poderá falar de práticas alhures, se nossas práticas não forem condizentes com o que desejamos e com o que manifestamos. Não se poderá desenvolver uma ação relevante, nem se poderá significar de modo relevante a existência, na solidão de nossas ações. Trata-se de reaprender, o que só é possível a partir do envolvimento e da experiência.

A preocupação e o respeito à sensibilidade do ser humano e sua valorização ética e criativa, mantendo uma atitude cooperativa e crítica perante o mundo atual, jamais nos permitirá a ilusão reconfortante de que fizemos o que está por ser feito. Quem sabe, consigamos realizar o melhor que podemos. Mas o suficiente ainda não bastará. Em que pesem nossos esforços, sempre estaremos diante de erros, faltas, fragilidades, de modo que devemos nos animar e nos ajudar em direção à sua superação. Só assim estaremos também diante de acertos, de alguma contribuição que poderemos dar.

Cooperação, incentivo, processos abertos, participação, flexibilidade, escolha, realização… Isso tem nada a ver com a produção flexível pós-f(…), pós-m(…), formas que se apropriaram e deformaram princípios que não tiveram o trabalho de constituir. Essas condições atuais são contrárias aos princípios que expropriaram, reduzindo-os em dinâmicas que infantilizam dinâmicas de grupo em busca de maior competitividade e controle, no caso das empresas, ilusão e afeto momentâneo no caso de agremiações de todo o tipo, pouco diferindo em suas práticas das formas hierarquizadas precedentes. Isso não é de fato cooperação, é concorrência e controle, superficialidade, e pouco tem a ver com liberdade, o respeito ao outro, o crescimento mútuo. Recusando essa camuflada flexibilidade normativa atual, olhamos para princípios éticos, defendidos e desenvolvidos ao longo de séculos, com os quais se define uma ação arbitrária ou desleal como injusta.

Os princípios que nos interessam têm a ver com a liberdade, o respeito ao outro, a sinceridade, o crescimento mútuo. O que tem a ver com a sensibilidade humana, com a alma que se aninha nas nossas ações, diante de nossas possibilidades, imperfeitas, de pensar e agir. Temos muito o que crescer na direção da generosidade, da alegria, da convivência, coisas que paradoxalmente, a par de sua simplicidade, colocam-se como desafios urgentes a cada um da nossa espécie. A proposição da espiral é assim uma tentativa de construção de uma ideia em acontecimentos, que não se pretende concluir através de um projeto sabido antes, mas de um projeto construído no vivido, na experiência de seus horizontes e suas contradições, seu desejo e sua busca.

Mas por que transformar? Ainda mais que transformar é ser incorporado em um processo mais amplo, do qual presentemente se discorda. É que a vida não nos permite subtrair-nos. Bem, essa perda de aspectos essenciais da vida já seria justificativa humana suficiente para procurar outras opções. E como a vida é capacidade de ação e interação, toda herança, achemos ela positiva ou negativa, está continuamente em transformação, é inerente à coexistência. Paisagens são lugares de existência comum: esperanças, desafios, heranças, vivências partilhadas. Somos desafiados a transformar essas heranças em nossa breve passagem. Paisagens não são permanentes, são um pouco do que somos. Fomos. Seremos. Enfim, se estamos transformando, podemos pensar se o fazemos na direção que cremos melhor, e procurar contribuir com esse direcionamento.

 


como citar
SANDEVILLE JUNIOR, Euler. Manifesto Espiral (2008). São Paulo: Cidade Sem Nome (http://www.cidadesemnome.org.br – atualmente desativado) n. 6, 2008. Disponível em https://poeticasdapaisagem.wordpress.com/2017/11/07/manifesto-espiral-2008/, acesso em XX/XX/20XX

 

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NOTAS

1 A palavra “humano” pode abrigar todos os delírios, brutalidades, injustiças, ambições, mas também nos aponta para o potencial ético, sensível, onírico, afetivo, lúdico, das relações que podemos estabelecer nos apoiando, aceitando diferenças, desfrutando possibilidades. Há que se posicionar seriamente sobre o sentido dessa sociedade que estamos a construir, porque não poderemos culpar a outros, nem deixar de reconhecer implicadas as nossas responsabilidades.

2 Introjeção de políticas de relacionamento internas à organização e sua construção de valores, que se dá pelo rebaixamento crítico trazido entre outras coisas pela necessidade de inserção e ansiedade permanente de sua perda. No âmbito social, do desejo e do consumo, tratados como economia, essa introjeção é representada por um estatuto normativo jurídico e de costumes que se impõe de forma difusa, como no “politicamente correto”. Nesse âmbito as transgressões desenham-se dentro de um campo possível de escolha mantido em suspensão e estímulo permanente. Essa organização de valores, desejos, comportamentos, delimitam as aspirações e linguagens para manter a funcionalidade produtiva assentada sobre a barbárie da injustiça social, por um lado, e a independência de condicionantes éticos nas esferas privilegiadas de decisão político-econômica por outro. Esse controle e essa normatização desenham assim em um universo de perda de referências e padrões as condições de relação interpessoal, produtiva e de consumo, isto é, o âmbito de civilização, resgatando-a das outras esferas mencionadas, que são extremos de violência e um estado de guerra por vários meios.

3 Entendida aqui como a ação no âmbito do paradigma social estabelecido, registrada como autônoma das motivações interiores e delas aparentemente, e artificialmente, segmentada.

4 Destaque-se que os campos disciplinares abrigados através dessa pertinência metodológica, institucional, ideológica, colocando-se curiosamente como “não-mercado” enquanto esfera de formação e produção de conhecimento, na verdade institucionalizam-se em relações de poder e limites de atuação, estabelecendo acordos internos que não são apenas de conhecimento, e encontram-se evidentemente alinhadas e reproduzindo ordenamentos e condições políticas e produtivas.

5 Não me refiro aqui à distinção artificial entre instituições de conhecimento e entidades produtivas, nem no imediato do pense-e-faça.

6 Parece haver um desejo de que palavras e imagens tenham vida própria, e assim desejos menos verbalizáveis fluam sob esse emudecimento da razão e entorpecimento da sensibilidade, sedadas na padronização e na tipificação, facilitadas pelo adocicamento e esquematização das possibilidades, seduzidas na conveniência e sob o anonimato da multidão e da publicidade. As palavras devem ser significadas pelas atitudes e as motivações que as suportam, devem dizer o que de fato dizem (corresponder dizer e fazer). Não são um texto autônomo.

7 A expressão “valorização humana” precisa significar algo que esteja à altura da ousadia de empregá-la, tamanho o desgaste e apropriação de todas as palavras por ações pouco comprometidas com o que implicam. Por “valorização” se entende a ampliação das possibilidades de realização da capacidade de cada vivente, bem como de grupos, em seus contextos de vida e valores, na sua interação com outras heranças e esferas coletivas, na relação com seres e coisas que interagem nessa bola azul em que navegamos o espaço-tempo. Ampliação de possibilidades que deve aproximar-se das latências e peculiaridades de cada pessoa, superando a injustiça de sua dilapidação. Implica, necessariamente, em valorização afetiva, cultural e socioambiental, sem o sentido e a mediação de valor econômico de produção e consumo como razão fundamental.

 

 

 

 

 

 

 

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