A LONGA ANTIGUIDADE DOS MUNDOS
Euler Sandeville Jr.
Junho de 2017 (definição da seção março de 2016)

 

Esta seção cobre o longo período das chamadas Antiguidade Oriental, Clássica, Tardia e Alta Idade Média. Para sua abertura, entretanto, escolhi algumas imagens de um período em tese trabalhado na seção A Aurora na Neblina. Imagens em certo sentido desconcertantes, já que a descoberta no século XIX da arte parietal das cavernas suscitou grandes discussões, porque não se coadunava facilmente, em um primeiro momento, com o pensamento acerca da evolução biológica e sociocultural do homem.

As imagens a seguir nos devem lembrar o quanto do acaso joga nas grandes descobertas, como veremos. Lembrar, sobretudo, do esforço de imaginação e subordinação aos preceitos de uma época a que esses testemunhos misteriosos e instigantes do passado nos estimulam, ao termos a necessidade de condicionar suas explicações consoante aos nossos pressupostos intelectuais. O quanto a interpretação do que se tratará nesta seção, embora já na chamada História, é dependente dos complexos impasses, disputas e certezas ontológicos e conceituais que se constituíram na formação da mentalidade contemporânea desde o século XVIII e XIX

Elas devem nos lembrar também que, antes da nossa, diversas sociedades constituíram ricas narrativas das origens. Obviamente não me refiro aqui aos testemunhos pré-históricos, mas a narrativas ancestrais como o Enuma Elish, Gilgamesh, o Livro do Gênesis, os Vedas e outros tantos, sem com isso querer igualar sua significação profunda. De modo algum são a mesma coisa. Apenas com isso desejo indicar como a busca de sentido atravessa “nossa” milenar jornada e nossa construção de artefatos materiais e intelectuais.

Mais do que isso, situando-nos na contemplação do passado a partir do nosso peculiar e tão recente presente, as imagens selecionadas nos lembrarão o rico campo imaginativo em que tanto estudamos quanto inventamos, e consumimos, as nossas narrativas do passado.

Em 1868 um caçador chamado Modesto Cubillas tentava libertar seu cão que ficara preso nas fendas. Descobriu então o que viria a ser uma das mais surpreendentes descobertas arqueológicas acerca do homem pré-histórico. Marcelino Sanz de Sautuola (1831 — 1888), aficionado em paleontologia, desde 1876 visitou o local.  Em 1878, buscando escavar restos de ossos e sílex como os que vira na Exposição Universal de Paris naquele mesmo ano, foi acompanhado de sua filha de 8 anos, Maria Sanz de Sautola y Escalante (1871-1946). A menina chegou a uma das “salas” interiores com as pinturas parietais, chamando o pai para ver as estranhas pinturas.

Fig. 1 e 2. Maria Sanz de Sautola y Escalante e Marcelino Sanz de Sautuola. Disponíveis em https://pt.wikipedia.org/wiki/Marcelino_Sanz_de_Sautuola#/media/File:Sanz_de_Sautuola.jpg e https://pt.wikipedia.org/wiki/Caverna_de_Altamira sob licença livre.

Sautola estava convencido de serem pré-históricas, mas totalmente inéditas em relação ao que se havia descoberto até então. Em decorrência, publicou em 1880 o Breves apontes sobre alguns objetos pré-históricos da província de Santander. Mas a descoberta era inteiramente inconsistente com as certezas da época sobre a evolução humana e das culturas, e surpreendente demais para não ser senão uma produção muito posterior. Não se encaixava. Os maiores especialistas recusaram veementemente seu trabalho.

Sautola morreu em 1888 completamente desacreditado nos círculos científicos mais influentes. Entretanto, rapidamente novas descobertas forçavam a uma revisão das certezas, que viriam a  exigir que se enquadrassem esses novos testemunhos que se multiplicavam em um quadro interpretativo, uma vez que se considerava agora comprovada a sua antiguidade. Os horizontes do “homem primitivo” se alargavam, bem como suas habilidades.

Em 1902 um dos maiores críticos de Sautola publicaria o artigo La grotte d’Altamira. Mea culpa d’un sceptique (A caverna de Altamira. Mea culpa de um cético). Infelizmente Sautola não usufruiu a reabilitação de suas ousadias. Mas a pequena Maria, já então com com 22 anos a essa altura, certamente tomou conhecimento da valorização da descoberta que fizera tão precocemente com seu pai, e que tantos dissabores lhe trouxe estar à frente da ciência que ajudava a construir. Seja como for, 14 anos após sua morte, esse acervo magnífico passou a integrar de modo coerente toda a compreensão contemporânea das origens. Em 1985 Altamira foi declarada Patrimônio da Humanidade.

Antes de entrarmos na chamada Antiguidade, vejamos nesta página de abertura de seção um outro exemplo de imagens que falam desses tempos antigos, mas falam ainda mais de nós mesmos. A Caverna de Chauvet foi descoberta por acaso por espeleólogos amadores em 1994. Sua pintura parietal, de modo ainda mais surpreendente, chega a ser datada em cerca de 36.000 anos atrás. Observe com atenção as duas fotos a seguir:

Fig. 3 e 4. Réplica (inclusive das pinturas e artefatos) da caverna de Chauvet, interior e exterior, para preservar o sítio arqueológico. Inaugurada em abril de 2015, em tamanho real. Disponível em http://www.dw.com/pt-br/fran%C3%A7a-inaugura-r%C3%A9plica-da-caverna-de-chauvet/a-18407392 O sítio não indica na data visitada restrição ao uso de imagens e disponibiliza links de compartilhamento.

 

Sintamo-nos convidados a adentrar nesta seção a longa antiguidade dos mundos.

 

 


cite este artigo:
SANDEVILLE JR., Euler. “A longa antiguidade dos mundos” (2016). Disponível em https://poeticasdapaisagem.wordpress.com/2017/11/07/a-longa-antiguidade-dos-mundos/ com acesso em XX/XX/201X.

Consulte TERMO DE USO/IMAGENS disponível na seção SOBRE


uma proposta de euler sandeville

 

 

 

 

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