A TERRA AZUL 1… QUE MUNDO É ESSE?
Euler Sandeville Jr.
versão inicial 2005/jan 2010/ 21/02/2016 a 05/03/2016. Última atualização: 05/03/2016

1. o mundo contemporâneo (ou: depois do fim do mundo)

Fig. 1. Chegada de The Beatles no Kennedy Airport, na Cidade de Nova Iorque, em 7 de fevereiro de 1964, United Press International, photographer unknown.
BEATLES. Photograph, United Press International. [1964.] Location: NYWTS – BIOG–Beatles–Singers Reproduction Number: LC-USZ62-111094 Note: No copyright found; checked by staff December 2000. Collections of the Library of Congress, disponível em http://lcweb2.loc.gov/pnp/cph/3c10000/3c11000/3c11000/3c11094r.jpg acesso em 27/02/2016.

O mundo contemporâneo; são, de fato, muitos mundos. Muitas temporalidades entrecruzando-se, esquecendo-se, refazendo-se como momento histórico. E passando muito rápido. Este texto situa o mundo contemporâneo, para efeito deste estudo, desde o fim da Segunda Guerra (se é que terminou de fato). E tem sentido, dadas as transformações que, na duração de uma vida (hoje, lá se vão coisa de 70 anos), deram origem a mundos que nunca existiram nem poderiam ter existido antes deste período.

No entanto, seria igualmente válido situá-lo nas dobraduras do século XVIII e XIX, com eventos igualmente dramáticos, como foram a revolução francesa e estadunidense e a industrialização. De modo que adotamos um contemporâneo (pós Segunda Guerra) dentro de um contemporâneo alargado (desde a segunda metade do século XVIII ou primeira metade do século XX). Mas o que muda nesse contemporâneo, e ainda está em curso, senão em exacerbação? A própria natureza e sentido do mundo.

O tempo da colheita e da plantação, das estações, da variação do dia, de uma eternidade entrevista em uma natureza que explicitava a existência de um mundo sobrenatural (para além do tempo a eternidade), deixa de ser o que demarca nosso entendimento do mundo. A industrialização e urbanização rápidas, um mundo de técnicas e artefatos comunicacionais e de produção e consumo sem precedentes, sob a égide do relógio, o tempo abstrato mensurável da produção, a subordinação do pensamento, do corpo, do fazer, da natureza, à eficiência e ao valor econômico, colocam nossas formas de relação interpessoal e construção de valores e conhecimentos nas esferas de produção-consumo.

Não deixa de ser interessante que, nesse mundo imediato, nesse mundo solúvel, o tempo e o espaço da existência da vida e do cosmo, absolutamente presas da matéria e do acaso pela lógica científica e produtiva, dilatam-se a escalas e quantidades quase infinitas e plásticas, impossíveis de se comparar com a escala humana, quer da vida, quer do corpo, ou mesmo do tempo social. É um mundo cada vez mais imediato, em todos os sentidos, e se o conhecimento de suas causas se mostra mais fugidio em escalas de tempo imensuráveis, sua recusa de qualquer transcendência o torna tão imediato quanto é, em nossa experiência, a matéria. O que não exclui a religiosidade, o misticismo e o sincretismo, podendo mesmo exacerbá-los.

Como em nenhuma sociedade antes que se tenha notícia, vivemos e aprendemos no afastamento e recusa radical de uma compreensão do mundo que seja mediada pela eternidade e pela natureza, ainda que persistam formas de religiosidade e superstição profundamente difundidas no âmago dessa cultura. Mas não são elas que moldam de modo predominante nossa compreensão (se considerarmos que a compreensão se expressa na prática decorrente), e sim um aqui e agora da experiência e das esperanças cada vez mais próximos e intensos, cada vez mais finitos, mediados por formas materialistas e hedonistas de consumo e vida, de pensamento e ação, de realização de curto prazo, senão imediata. Essa condição está apoiada, e ancorada, em uma banalização da linguagem corrente e de manipulação técnica das bases da vida e da matéria, que ganham autonomia do universo de valores e da ética.

Obviamente nosso contemporâneo não começou no segundo pós-guerra, ou na virada do XIX, e heranças milenares ainda se fazem ouvir de muitas formas. Mas é a partir da data simbólica de 1945 que o observo, para favorecer a organização dos debates. De qualquer modo, o que são 500, 600 anos nessa aventura humana? Não nos esqueçamos, estes últimos 200 anos, talvez 70 anos, nos colocaram diante de situações sem paralelo com qualquer outro momento da humanidade.

A interrogação desse tempo tão recente, que reivindica uma autoridade voraz sobre todos os outros, seria já um imenso desafio. Não, não seria suficiente para mudar rumos dramáticos que vamos construindo com nossa tecnologia e proximidade, como se as engrenagens que pusemos em movimento agora nos ponham em movimento. Mas colocar em discussão esse caminho talvez faça ver que não tem nada de inexorável, são decisões, escolhas que fomos e vamos tomando, como os que nos antecederam tomaram as que nos trazem até aqui.

O que estamos vendo, imersos nesse redemoinho? Podemos também perguntar: o que, pela proximidade e habitualidade, vendo já não percebemos? Ou seja, o que, diante de nós, não estamos vendo? O que já está em gestação, já está em acontecimento ainda oculto a nossos olhos? Podemos, depurando a capacidade de observação, por seus movimentos e sombras que nesse mover-se projeta, discernir as formas que em breve definirão nosso cotidiano de modo que hoje não aceitaríamos? Este texto em parte é sobre isso. Posso resumir sobre os objetos, formas, comportamentos, que ainda não existem: já estão sendo constituídos.

Fig. 02. O LHC tem 27 quilômetros de circunferência em um túnel a 100 metros de profundidade, sob fronteira entre a Suíça e a França, a distância percorrida por um feixe em 10 horas equivale a uma ida e volta a Netuno, com os prótons chegando a atingir 99,92992% da velocidade da luz no momento da colisão, cuja temperatura é 1 milhão de vezes mais quente que no centro do Sol. Começou a ser construído em 1998 com a colaboração de mais de 100 países e foi inaugurado em 2008.
“O Laboratório Europeu de Física de Partículas (CERN), em Genebra, anunciou neste domingo a reabertura do LHC (Large Hadron Collider), uma enorme máquina subterrânea onde dois feixes de partículas de altas energias colidem a velocidades próximas da da luz para tentar reproduzir o que se passou a seguir à criação do Universo, há 13.800 milhões de anos”.
Disponível em http://www.publico.pt/ciencia/noticia/maior-acelerador-de-particulas-do-mundo-retoma-actividade-1691407 acesso em 27/02/2016.

 

2. a terra é azul! conhecer não é preciso…

Figura 03: Sputnik 1, lançado em 4 de outubro de 1957, com 58 cm de diâmetro, antenas de até 3 metros, pesando 83 kg.
Disponível em http://nssdc.gsfc.nasa.gov/database/MasterCatalog?sc=1957-001B, acesso em 27/02/2016.

Assim começou Hannah Arendt, em 1958, atenta aos acontecimentos, seu livro sugestivamente intitulado A Condição Humana:

Em 1957, um objeto terrestre, feito pela mão do homem, foi lançado ao universo. (…) Este evento, que em importância ultrapassa todos os outros, até mesmo a desintegração do átomo, teria sido saudado com a mais pura alegria não fossem as suas incômodas circunstâncias militares e políticas. (…) A reação imediata, expressa espontaneamente, foi alívio ante o primeiro ‘passo para libertar o homem de sua prisão na Terra’. E essa estranha declaração, longe de ter sido o lapso acidental de algum repórter norte-americano, refletia, sem o saber, as extraordinárias palavras gravadas há mais de vinte anos no obelisco fúnebre de um dos grandes cientistas da Rússia: ‘A humanidade não permanecerá para sempre presa à terra’. (…) A banalidade da declaração não deve obscurecer o fato de quão extraordinária ela é (…) ninguém na história da humanidade havia concebido a terra como prisão para o corpo dos homens (…). Devem a emancipação e a secularização da era moderna, que tiveram início com um afastamento, não necessariamente de Deus, mas de um deus que era o pai dos homens no céu, terminar com um repúdio ainda mais funesto de uma terra que era a Mãe de todo os seres vivos sob o firmamento? A Terra é a própria quintessência da condição humana e, ao que sabemos, sua natureza pode ser singular no universo, a única capaz de oferecer aos seres humanos um habitat no qual eles podem mover-se e respirar sem esforço ou artifício. O mundo – artifício humano – separa a existência do homem de todo ambiente meramente animal; mas a vida, em si, permanece fora desse mundo artificial, e através da vida o homem permanece ligado a todos os outros organismos vivos. Recentemente, a ciência vem-se esforçando por tornar ‘artificial’ a própria vida (…). O mesmo desejo de fugir da prisão terrena manifesta-se na tentativa de criar a vida (…) e talvez o desejo de fugir à condição humana esteja presente na esperança de prolongar a duração da vida além do limite de cem anos. Esse homem do futuro, que segundo cientistas será produzido em menos de um século, parece motivado por uma rebelião contra a existência humana tal como nos foi dada – um dom gratuito vindo do nada (secularmente falando), que ele deseja trocar, por assim dizer, por algo produzido por ele mesmo. 2

Infelizmente, todas essas maravilhas que maravilham um homem desejoso de escapar dessa condição humana, foram utilizadas para a guerra, a discriminação e o controle dessa rica aventura da humanidade sobre a Terra. O pequeno objeto foi cercado de atenção e empalidecimento intencional, mas certamente foi um feito extraordinário. Uma década depois, como veremos, feitos ainda mais extraordinários para a humanidade seriam noticiados pelo mundo com a instantaneidade de um raio.

Mas, cerca de apenas uma década antes, nessa corrida estratégica, militar e tecnológica, que é também econômica, ocorreram fatos que àquelas alturas já se queria que fossem relegados ao esquecimento. Marcas sangrentas da construção dessa mesma tecnologia, que o também atento Stanley Kubrick (1928-1999) registraria no extraordinário Dr. Fantástico 3, filme de 1964. Recuemos pouco mais que uma década.

Um dos maiores genocídios de que temos notícia na humanidade se perpetuava destinado a jamais ter a atenção que exigiria, se houvesse uma base ética e conscienciosa nesta sociedade da Aldeia Global 4 em formação. Um poder que até então só se atribuíra a anjos (Gn19 5), estava agora nas mãos de uma única nação. Povo de guerreiros brutais, como indicam seus filmes, enquanto se julgou a única a deter tal poder, não hesitou ante a arrogância e impiedade inclemente de utilizá-lo.

Nos dias 06 e 09 de agosto de 1945, com apelidos dados aos artefatos tecnológicos como se fosse uma brincadeira, foram assassinados cerca de 300.000 civis indefesos. Mas isso não foi considerado pelas cortes internacionais um crime, e sim um ato de guerra. Em março daquele ano, Tóquio havia sido bombardeada, estimando-se 80.000 mortos 6! O que demonstra que não era a capacidade de destruição por armas “convencionais” o que estava em jogo. O primeiro artefato foi lançado por volta das 8 horas da manhã, sobre uma cidade entretida em seus afazeres e ansiedades da rendição já certa. O tempo passou, e olhamos à distância, como se nunca houvesse acontecido.

Figura 04: Bomba atômica, lançada primeiro em Nagasaki, a 6 de Agosto de 1945 fora irresponsavelmente apelidada de “Little Boy”, lançada do B-29 “Enola Gay” (de 18 km de altura). A 9 de Agosto a “Fat Man” foi lançada pelo B-29 “Bock’s Car” sobre Nagasaki, cuja explosão foi registrada por Charles Levy de um dos B-29 utilizados no ataque.
Fonte: http://www.archives.gov/research/military/ww2/photos/images/ww2-163.jpg National Archives image (208-N-43888). Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/II_Guerra_Mundial acesso em 06/08/2005, 09:00!!!!!!.

No dia 07 de agosto de 2005, havia 60 anos daquele evento vergonhoso, a Folha de São Paulo publicou matérias discutindo, pasmem, o acerto ou não do lançamento das bombas estadunidenses sobre Hiroshima e Nagasaki em 1945 7. As matérias na página precedente, em tom compensatório, aproveitavam para lembrar as atrocidades militares dos japoneses contra coreanos e chineses, em décadas anteriores. É como se uma atrocidade justificasse a outra, e os tribunais de guerra entenderam assim: jamais foram responsabilizados os mandantes dos massacres promovidos pelos EUA, embora militares japoneses tenham sido enforcados.

Estranha a reportagem do jornal, no mínimo. Não há margem para acerto em atitudes desse tipo, mas pela imprensa ficamos sabendo que a maioria (57% 8) dos estadunidenses ainda aprovava o bombardeio atômico no Japão (apenas 38% o reprovavam 9)! Com o desenvolvimento da mesma tecnologia pela União Soviética, a partir de 1949, o mundo mergulhou em uma enorme ansiedade quanto à sua perspectiva de continuidade, e, por que não, quanto à sua sustentabilidade, assentada em um delicado equilíbrio político e militar, representado com imensa ironia em “Dr. Fantástico”, citado acima.

Figura 05. Em janeiro de 1937, o governo espanhol fez uma encomenda a Picasso para o pavilhão da Espanha na Exposição Internacional de Paris, que aconteceria em junho. A 26 de abril de 1937, a cidade basca de Guernica foi bombardeada por aviões da força aérea alemã, aliada do general Franco na Guerra Civil Espanhola (1936-1939). O massacre inspirou o Guernica, de Picasso. No entanto, uma das pinturas mais famosas do século XX, parece emudecer diante do que haveria para ser dito de Hiroshima e Nagasaki.
Atualmente está no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, em Madrid na Espanha, reproduzimos um painel feito em Guernica, foto de Papamanila, 10 Disponível em https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Mural_del_Gernika.jpg acesso em 27/02/2016.

 

3. Mas a “Terra é azul” (1961) 11!

Em 1961, pela primeira vez, um homem viu seu planeta de fora. Foi bem mais do que isso, o que já não é pouco. Recuperemos as datas: 1945, 1957 (1961), 1968. Tenho o costume dizer a meus alunos que estas últimas gerações viram um mundo que nenhum homem, antes do final do século 20, poderia sequer supor real. Mas não é uma “Nova Era” de Aquários, é um mundo em que tecnologia e barbárie não se distinguem, apesar da inteligência sobre as coisas da natureza de que nos julgamos dotados.

Figura 06: Homem andando na lua, lembrando o slogan “daqui nada se leva senão lembranças, nada se deixa senão pegadas, nada se tira senão fotos”, mas na Lua, além de pegadas e refugos, deixou-se uma bandeira. 21 July 1969, “el astronauta Buzz Aldrin, piloto del módulo lunar, camina sobre la superficie de la Luna cerca de la pata del módulo lunar (LM) Eagle durante el paseo lunar del Apolo 11 (EVA). El astronauta Neil A. Armstrong, comandante, tomó esta fotografía con una cámara de 70mm. Mientras los astronautas Armstrong y Aldrin descendieron en el módulo lunar (LM) Eagle para explorar la región del Mar de la Tranquilidad, el astronauta Michael Collins, piloto del módulo de mando, se quedó con los módulos de mando y servicio (CSM) Columbia en la órbita lunar“.
Fonte http://www.hq.nasa.gov/alsj/a11/AS11-40-5903HR.jpg e http://www.archive.org/details/AS11-40-5903 (TIFF image). Disponível em https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Aldrin_Apollo_11_original.jpg acesso em 27/02/2016. “This image is a JPEG version of the original TIFF image at File: Astronaut Edwin Aldrin walks near the Apollo 11 Lunar Module (1969-07-21).tif. This JPEG version should be used when displaying the file from Commons, as the MediaWiki software is unable to create a thumbnail or preview of the original TIFF file, because it is larger than 50 megapixels. However, any edits to the image should be based on the original TIFF version in order to prevent generation loss, and both versions should be updated. Do not make edits based on this version”.

Figura 07. Também de 1968 é o “2001: A Space Odyssey” filme que inovou o roteiro da ficção científica, com um realismo tecnológico na ambientação das cenas e inúmeras implicações filosóficas intencionais, que permanecem em aberto pela sugestão das imagens, embora sugira um contínuo evoluir da humanidade, motivado por saltos que não se podem explicar (representado pelo monolito). Filme anglo-americano, dirigido e produzido por Stanley Kubrick, co-escrito por Kubrick e Arthur C. Clarke. Data de lançamento: 29 de abril de 1968 (Brasil). Continuação: 2010: O Ano Em Que Faremos Contato. Música composta por: Richard Strauss, György Ligeti, Johann Strauss, Aram Khachaturian.
Disponível no Bolgue de José Bruno Ap Silva, Sublime Irrealidade, onde se lê uma boa resenha do filme, em http://sublimeirrealidade.blogspot.com.br/2012/11/2001-uma-odisseia-no-espaco.html acesso em 10/02/2016

Quando, entre 1977 e 1981 cursei a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo em Campinas, não havia celular, computador pessoal, Internet, aids, modificação genética em produtos do cotidiano, vitais ou não. Devo esclarecer um ponto sobre os objetos que não existiam: eu é que não os imaginava.

Em 1973 12 foi feita uma ligação pública de um telefone portátil que começou a ser comercializado apenas em 1983 pela Motorola; em 1982 um produto transgênico já fora colocado no mercado, a insulina; a AIDS foi oficialmente reconhecida nos EUA em 1981 e em 1983 o vírus foi isolado, mas só tomamos consciência disso daí em diante; em 1975 foi lançado um computador doméstico (Altair 8800), para o qual a recém criada Microsoft logo lançou uma versão de Basic e em 1976 foi criada a Apple; em 1980 entrou a IBM no mercado, para a qual a Microsoft desenvolveria o sistema operacional DOS, e em 1981 anunciava o Windows 1 (lançado em 1985!), que ainda não era um sistema operacional, mas uma interface para o DOS.

Figura 08: Eniac (Electrical Numerical Integrator and Calculator), desenvolvido na Universidade da Pensilvânia desde 1943. Era composto de 18000 válvulas, 15000 relés e emitia o equivalente a 200 quilowatts de calor. Foi alojado em uma sala de 9m por 30m. Só com a invenção do transistor de silício, em 1947, tornou-se possível aumentar a velocidade das operações. “Two women operating the ENIAC’s main control panel while the machine was still located at the Moore School. “U.S. Army Photo” from the archives of the ARL Technical Library. Left: Betty Jennings (Mrs. Bartik) Right: Frances Bilas (Mrs. Spence) setting up the ENIAC. Betty has her left hand moving some dials on a panel while Frances is turning a dial on the master programmer. There is a portable function table C resting on a cart with wheels on the right side of the image. Text on piece of paper affixed to verso side reads “Picture 27 Miss Betty Jennings and Miss Frances Bilas (right) setting up a part of the ENIAC. Miss Bilas is arranging the program settings on the Master Programmer. Note the portable function table on her right.”. Written in pencil on small white round label on original protective sleeve was “1108-6”. Detalhes da permissão Copyright info at [2] Of note, this is PD, provided the phrase “U. S. Army Photo” is along with the photo. Use the photo wherever, but PLEASE include this info.
Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/ENIAC#/media/File:Two_women_operating_ENIAC.gif acesso em 27/02/2016

 

4. Essa nova realidade já está aqui

“Essa nova realidade já está aqui”, advertira Waldemar Cordeiro (1986:63) em 1970, discutindo em um texto muito interessante e pouco difundido, que os novos meios de comunicação trariam impacto sobre a organização do território. Esse impacto foi bem mais amplo a partir dos anos 1990.

As mudanças no mundo que nos cercam são tão rápidas, e em meio a tantos estímulos, que a maioria de nós não se apercebe disso. Não apenas os novos objetos se impõem com tal fluidez no cotidiano; mas o fazem no âmbito de marcos dramáticos, de modo que, de certa forma, permanecem invisíveis à consciência de uma transformação. O ambiente que atravessamos municiados de todo esse aparato tecnológico revela também imensas transformações, reconstruindo-se e resignificando-se continuamente.

Quem é capaz de pensar que em São Paulo, há cerca de meio século, ainda se utilizavam para lazer locais como o Pinheiros e o Tietê, considerando-se que até 1945 (há 66 anos) realizavam-se competições de natação no rio, e até 1972 (há 44 anos 13) ainda se realizavam provas de remo? Até a década de 1960, quando ainda ia-se de bonde ao centro, não se pensava em consumir, produtos, cultura ou serviços, fora do centro histórico. Foi apenas nos anos 1960 que se iniciou uma diversificação nesse sentido, com a novidade da Sears no Paraíso e do primeiro Shopping Center, na atual avenida Faria Lima, então uma rua bem mais estreita, a Iguatemi, alargada gradualmente a partir de 1967 14.

Cenários hoje familiares, e que dão a impressão de sempre terem estado lá, como a avenida Juscelino Kubitscheck, são bem recentes: até 1974 15 havia ainda a céu aberto o córrego do Sapateiro, em cuja proximidade havia uma casa bandeirista. Nada disso mais existe, senão uma grande avenida e conjuntos de altos prédios. O que ficou da casa bandeirista diante de um terreno negociado a R$ 500.000.000,00 para construção de um hotel de luxo. Por todos os lados, configura-se continuamente uma paisagem sem memória de sua transformação.

Boa parte dos bairros periféricos da cidade teve um desenvolvimento notável a partir dos anos 1970, quando o município já contava com quase 6 milhões de habitantes (a população pelo Censo de 2000 era estimada em 10.434.252 habitantes 16). O caso de Cidade Tiradentes é notável, mas não está isolado, tendo passado de 95.926 habitantes em 1991 a 229.606 em 2004 17. Poderia multiplicar os exemplos. Isso demonstra que, em um prazo muito curto, uma cidade que hoje sentimos inexorável e inevitável, como se sempre houvesse estado ali, foi construída.

5. nossos novos ícones e nossa nova percepção do mundo

As ameaças da década de 1970, do sistema internacional bipolar, e no Brasil o terror da ditadura e a luta armada, cederam a novos ícones. Inicialmente, esses ícones foram-nos oferecidos como tal a destruição do muro de Berlim em 1989 e o “esfacelamento” da URSS em 1991. Entre 1989 e 1992 18, esses fatos emblemáticos alardeavam um “mundo novo”, surgido sobre as ruínas da Guerra Fria. Não deu certo, esse novo mundo.

A União Soviética não existe mais, declarou em 1991 James Baker, secretário de Estado dos EUA. Também não havia mais o Muro de Berlim, de 155 km de extensão, 3,60 metros de altura, dimensões e formas de controle que hoje seriam discretas diante de câmeras, drones, mapeamento contínuo até de dados biomédicos, preferências de cir, amizade etc. e localização/mobilidade dos cidadãos nas grandes cidades. O Muro nos chocava pela brutalidade, pelo terror emudecedor que se nos oferecia como uma forma de educador invisível. Começara com uma cerca armada em 1961, mesmo ano da tentativa norte-americana de invasão de Cuba, um dos ícones da Guerra Fria.

O mundo evidentemente mudara nas décadas entre 1980 e 1990, todos reconheciam, mas não encontravam prontamente as formas suficientes de um novo posicionamento. Logo, todos os discursos procurariam adaptar-se, reinterpretar e reinterpretar-se para reinserirem-se no que parecia uma nova ordem de coisas.

Figura 09: Estação Espacial MIR1, lançada em 1986, ano também da explosão do ônibus espacial Challenger. Na foto: “12 June 1998 Russia’s Mir space station is backdropped over the blue and white planet Earth in this medium range photograph recorded during the final fly-around of the members of the fleet of NASA’s shuttles. Seven crew members, including Andrew S.W. Thomas, were aboard the Space Shuttle Discovery when the photo was taken; and two of his former cosmonaut crewmates remained aboard Mir. Thomas ended up spending 141 days in space on this journey, including time aboard Space Shuttles Endeavour and Discovery, which transported him to and from Mir. Fonte http://spaceflight.nasa.gov/gallery/images/shuttle/sts-91/hires/91727051.jpg e (http://spaceflight.nasa.gov/gallery/images/shuttle/sts-91/html/91727051.html) Original image: NASA/Crew of STS-91 This image or video was catalogued by one of the centers of the United States National Aeronautics and Space Administration (NASA) under Photo ID: STS091-727-051. This tag does not indicate the copyright status of the attached work.
Disponível em http://spaceflight.nasa.gov/gallery/images/shuttle/sts-91/hires/91727051.jpg acesso em 27/02/2016.

Figura 10: “1984, Micrografia eletrônica de varredura de VIH-1, em cor verde, saindo de um linfócito cultivado. Microfotografía con MEB de VIH-1 en liberación (en verde) en un cultivo de linfocitos. Esta imagen ha sido coloreada para resaltar las características importantes; para la imagen original en blanco y negro véase PHIL 1197. Las múltiples protuberancias redondeadas sobre la superficie celular representa los sitios de ensamblado y gemación de viriones. Photo Credit: C. Goldsmith Content Providers: CDC/ C. Goldsmith, P. Feorino, E. L. Palmer, W. R. McManus – This media comes from the Centers for Disease Control and Prevention’s Public Health Image Library (PHIL), with identification number #10000. Note: Not all PHIL images are public domain; be sure to check copyright status and credit authors and content providers.” Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/V%C3%ADrus_da_imunodefici%C3%AAncia_humana#/media/File:HIV-budding-Color.jpg Acesso em 27/02/2016.

Figura 11: Em http://brasustribunaldosbichos.blogspot.com.br/2012/07/pais-inicia-producao-de-animais.html acesso em 27/02/2016, post de 2012, ficamos sabendo que os primeiros animais transgênicos foram camundongos produzidos em 1981:
“Desde então, o genoma do camundongo já foi completamente sequenciado e praticamente todos os seus genes – 95% dos quais são iguais aos do homem – já foram modificados de uma forma ou de outra (…) Só o Laboratório Jackson, um dos maiores fornecedores de camundongos transgênicos do mundo, nos EUA, tem um catálogo com mais de 6 mil variedades e vendeu, só no ano passado, mais de 3 milhões de animais para pesquisadores de 56 países”. No Brasil o primeiro foi produzido em 2000, na USP. O Laboratório de Modificação do Genoma (LMG), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, em Campinas (“Se um cientista precisa de um animal transgênico, ele faz a encomenda, fornece as especificações, o LMG produz o animal e manda para ele. Tal qual um escritório de engenharia executa um projeto para um arquiteto”), já produziu cerca de 50 linhagens de camundongos transgênicos, utilizando nove genes diferentes: “Outras 15 linhagens foram importadas do Laboratório Jackson, por US$ 6,5 mil (cerca de US$ 230 por animal). O Estado presenciou a chegada das últimas quatro, no início do mês: oito camundongos em uma caixa de plástico com comida e água em forma de gel. São animais com um grau a mais de complexidade transgênica. Eles têm uma enzima no organismo que funciona como um interruptor molecular, que permite aos cientistas ligar ou desligar as modificações genéticas onde e quando desejarem.”.
Na imagem acima, um uso menos cinetífico. “GloFish”, variedade do peixe Danio rerio geneticamente modificada com adição de um gene do cnidário Aequorea victoria. No sítio da empresa lemos: “GloFish® fluorescent fish are born brilliant! They are not injected or dyed. They inherit their harmless, lifelong color from their parents, and require the same care as any other community fish. GloFish are great for any home, office, or classroom and perfect for hobbyists and beginners alike. GloFish are available in six striking colors: Red, Blue, Green, Purple, Orange, Pink.” Source http://www.glofish.com/images/glofish_005.jpg The copyright holder of this file allows anyone to use it for any purpose, provided that the copyright holder is properly attributed. Redistribution, derivative work, commercial use, and all other use is permitted.
Disponível em https://commons.wikimedia.org/wiki/File:GloFish.jpg acesso em 27/02/2016.

No cotidiano a nossa percepção do mundo também era imensamente impactada. Em 1995 o acesso à World Wide Web (“criada” em 1991) foi possibilitado a partir do estabelecimento dos provedores. Os telefones celulares, introduzidos em 1990 no Brasil, quando havia 667 linhas, chegam a 1.416.500 linhas em 1995. Coisa ainda irrelevante, se considerarmos o boom de aparelhos a partir de 1999 (15.032.698 linhas), atingindo no início de 2004 mais de 47 milhões de linhas e logo depois a cifra impensável (e irreal) de quase “um celular para cada brasileiro” (175,6 milhões de celulares em janeiro de 2010 segundo a Anatel).

Todas essas transformações acima indicadas, e outras igualmente relevantes, quase já não nos permitem lembrar – tão absorvidos e conectados que estamos -, do mundo no qual, até há pouco, muitos de nós viveram. O modo de viver muda, não são apenas hábitos e novos artefatos. São profundas mudanças comportamentais nas expectativas, anseios e medos, nas possibilidades e valores de satisfação, e o que não se percebe tão facilmente, na ética e na própria natureza. Trata-se de um novo mundo, por vezes intratável.

Havia uma outra face, subjacente à euforia anunciada com a queda da Cortina e do Muro, que se mostraria logo no início da primeira década do século 21. Não mais entre bancas de jornais e revistas que coloriam o imaginário dos anos 1960 na canção de Caetano Veloso (Alegria Alegria, de 1967, apresentada no Festival da Record desse ano), mas em um mundo conectado 24 horas por dia. Quem não abre o programa de imeil (e-mail) ao chegar em casa? Esta outra face da nossa alardeada “Nova Era” é ainda violenta, mas vem carregada de ambiguidade, emergência, indiferença, como observei em um texto de 2002:

O signo de esperança e liberdade da queda do muro de Berlim em 1989 revela sua face crua, dura, abominável, na ‘primeira guerra do século’, como está sendo chamada. Mudaram-se os jogos e condições, o modo de fazer guerra? Não interessa, aos ataques seguem-se orações, doação de comida e mortes. A polarização Nova Iorque – Cabul põe a descoberto os valores a partir dos quais estamos construindo o planeta para nossos filhos! 19

A mesma tecnologia que nos permite colocar, neste momento, este trabalho on line disponível ao mundo todo, ou transmitir em “tempo real” uma reunião a qualquer parte do planeta, ou realizá-la em rede entre vários países em “tempo real”, é extensão cotidiana de novas formas de controle, circulação de informação… e morte. A vida, tornada por todos os meios questão de mercado, por isso também de estratégia, é disputada palmo a palmo nos fóruns entre as nações, como nas esquinas das cidades, nos pregões, gabinetes públicos, sindicatos e escritórios.

Essa face sombria da “Nova Era” anunciada – não tão nova como logo se viu, evidenciou-se com o atentado às “torres gêmeas” de Nova Iorque (em 2001), com as subsequentes novas formas de ações estadunidenses no Oriente Médio, e hoje com atentados, refugiados e crimes transmitidos ao vivo on line.

Alguns ícones dessa nova era, ao abrir-se do novo século, já são bastante sombrios. Sempre restaria a desculpa de que se referem a processos do passado, de um problema herdado do século anterior. Bem, isso só confirmaria duas coisas, primeiro a importância de nossas heranças e do que legaremos, segundo, que são ainda um fato bem presente.

Novos muros se constroem, como aquele que cerca Israel 20 ou a censura da internet chinesa amplamente noticiada no final da primeira década do século, ou ainda as milícias civis (que realidade humana triste essa) que procuram impedir, pela força, a entrada de imigrantes nos EUA, aliás, um pais que deve sua construção a imigrantes.

Fig 12. A imagem mostra como que uma sobreposição de tempos, de persistências e inovações em conflitos que atingem a todos. A natureza não só não é a mesma, como não é igual para todos, nem em seus significados, possibilidades de fruição, finalidades.
“As Nações Unidas estimam que aproximadamente 224.5 mil pessoas atravessaram o Mediterrâneo rumo à Europa. As ilhas gregas foram o ponto de chegada para quase 124.2 mil refugiados e migrantes, a Itália para 98.5 mil, Espanha para 1.7 mil e Malta recebeu 94 pessoas, segundo os dados oficiais destes países. (…) A Síria é o ponto de partida e nacionalidade de dois terços dos refugiados que conseguiram chegar à Grécia. Segue-se o Afeganistão (20%) e o Iraque (5%)”. Grécia é o primeiro destino dos refugiados que cruzam o Mediterrâneo [7 Agosto, 2015]
Disponível em http://www.infogrecia.net/2015/08/grecia-e-o-primeiro-destino-dos-refugiados-que-cruzam-o-mediterraneo/ acesso em 15/02/2016

Essa realidade é muito próxima. Basta ver que imigrantes são hostilizados em nossas cidades, acontecendo aqui mesmo em São Paulo, no Parque Dom Pedro, violência sob pretexto de xenofobia contra imigrantes haitianos, vindos de onde o Brasil capitaneia uma força de paz da ONU. Ainda em 2015 seis haitianos foram baleados no Glicério, sendo que ouvi pessoalmente relato de Patrick Dieudanne dizendo que não receberam atendimento adequado em unidades de saúde e foram mandados para casa com balas e dor, antes de conseguirem ser atendidos no Hospital Tatuapé. Se observarmos algumas fotos premiadas, veremos a repetição de um drama, contemporâneo, e algumas dessas fotos são de amplo conhecimento. Algumas, como as duas primeiras (figuras 13 e 14), chegam a ter uma temática muito semelhante ainda que com resolução fotográfica muito distinta. Não deixa de ser interessante o campo invertido de ambas.

Fig 13. A foto do ano foi para o australiano Warren Richardson, com uma imagem que mostra um bebê de família migrante sendo passado por baixo de uma cerca de arame farpado na fronteira entre Hungria e Sérvia, em agosto de 2015. A cena também levou o 1º lugar na categoria “Notícias Factuais”. Não menciona restrição de direito autoral ou de reprodução. Disponível em http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/02/world-press-photo-imagem-de-bebe-migrante-sob-cerca-e-eleita-foto-do-ano.html acesso em 04/03/2016.

Fig 14. Foto de Carol Guzy premiada com o Prêmio Pulitzer em 2000. Realizada em 03 de março de 1999, retrata o garoto Agim Shala, de 2 anos de idade, passado para sua família no campo de refugiados de Kosovo em Kukes, Albânia. Não menciona restrição de direito autoral ou de reprodução. Disponível em http://www.npr.org/sections/goatsandsoda/2015/09/04/437582231/an-image-of-a-child-can-change-the-way-we-see-the-world acesso em 04/03/2016

Essas fotos são antecedidas pela icônica e trágica imagem de uma menina vietnamita de 9 anos, Phan Thị Kim Phúc, fugindo das explosões de napalm em 08 de junho de 1972 (figura 15). A fotografia foi tirada por Huynh Cong Ut da agência Associated Press e recebeu o Prêmio Pulitzer de 1973. O sangue frio e indiferença dos soldados fica realçado pelo soldado que aparece filmando a dor das crianças. Essa foto escandalizou o mundo, em um tempo em que as imagens do Vietnã circulavam quase em tempo real, expondo a injustiça da guerra com sua violência cruel e sem limites, reforçando movimentos pacifistas e por direitos humanos. Mas a imagem icônica não deixa de ser transformada em ícone e torna-se midiática, para além do sofrimento da menina queimada e que é içada em sua tragédia uma celebridade, à própria revelia.

Fig 15. “Terrified children, including 9-year-old Kim Phuc (center), flee after a South Vietnamese plane dropped a napalm bomb on June 8, 1972. The girl had ripped off her burning clothes”. Não menciona restrição de direito autoral ou de reprodução. Disponível em http://www.npr.org/sections/goatsandsoda/2015/09/04/437582231/an-image-of-a-child-can-change-the-way-we-see-the-world, acesso em 04/03/2016.

 

Em 1972, os americanos lançaram uma bomba de napalm em meu povoado, no sul do Vietnã. Um fotógrafo, Nick Ut, tirou uma foto minha fugindo do fogo, a foto que hoje é tão famosa. Eu me lembro que tinha 9 anos, era apenas uma menina. Naquela noite, nós do povoado havíamos ouvido que os vietcongues estavam vindo e que eles queriam usar a vila como base. Então, quando já era dia, eles vieram e iniciaram os combates no povoado. Nós estávamos muito assustados. Eu me lembro que minha família decidiu procurar abrigo em um templo, porque nós acreditávamos que lá era um lugar sagrado. Nós acreditávamos que, se nos escondêssemos lá, estaríamos a salvo. Eu não cheguei a ver a explosão da bomba de napalm; só me lembro que, de repente, eu vi o fogo me cercando. De repente, minhas roupas todas pegaram fogo, e eu sentia as chamas queimando meu corpo, especialmente meu braço. Naquele momento, passou pela minha cabeça que eu ficaria feia por causa das queimaduras, que eu não ia mais ser uma criança como as outras. Eu estava apavorada, porque de repente não vi mais ninguém perto de mim, só fogo e fumaça. Eu estava chorando e, milagrosamente, ao correr meus pés não ficaram queimados. Só sei que eu comecei a correr, correr e correr. Meus pais não conseguiriam escapar do fogo, então eles decidiram voltar para o templo e continuar abrigados por lá. Minha tia e dois de meus primos morreram. Um deles tinha 3 anos e o outro só 9 meses, eram dois bebês. Então, eu atravessei o fogo.
Phan Thị Kim Phúc.
Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Phan_Th%E1%BB%8B_Kim_Ph%C3%BAc acesso em 04/03/2016.

Em 2015, no confronto da polícia com professores no Paraná (figura 16), não é possível não considerar a foto como montagem, midiática portanto, recuperando subliminarmente a foto clássica. Seja montagem ou não, seja produção utilizando a força policial como cenário ou não, seu significado é claro, sua mensagem é direta. Seu objetivo é reproduzir, sob a evidência do registro, um sentimento já assimilado de recusa à violência e de indignação diante da covardia. A foto em questão circulou nas redes sociais na ocasião e não disponho no momento de maiores informações sobre ela. No entanto, parece-me importante entender o uso midático e a construção da imagem no mundo contemporâneo, seu potencial discursivo. De fato, a foto não representa a violência cometida pelo governador Beto Richa contra os professores na ocasião, como foi amplamente noticiado, levando depois em uma atitude meramente política à destituição do Secretário, desviando a atenção do Governador. Ainda no sentido de entender essa construção da imagem, anexo na figura 17 outra foto emblemática. Nesta a pessoa se expõe ao risco, mas não deixa de ser uma remissão à coragem para enfrentar uma força maior, que atua na injustiça. Tenho em mente as marchas lidderadas por Martin Luther King, que, pela fé e pelo direito, estabelece uma rica iconografia de resistência pacífica diante da injustiça e da força bruta (figura 18).

Fig 16. Imagem realizada durante a greve de professores do Paraná em 2015, duramente reprimida pelo Governo de Beto Richa e seu Secretário da Educação. A foto circulou nas redes sociais em abril de 2015.

Fig 17. Foto Daniel Castellano/Gazeta do Povo. Fonte: Gazeta do Povo 12/02/2016, “Promotoria da Vara Militar pede arquivamento de inquérito sobre Batalha do Centro Cívico”. O sítio não indica restrições ao uso da imagem na data visitada. Disponível em http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/promotoria-da-vara-militar-pede-arquivamento-de-inquerito-sobre-batalha-do-centro-civico-afblqx2lhvatje48rum8xupmr acesso em 05/03/2016

Fig 18. Cartaz de Selma (Selma: Uma Luta pela Igualdade, Brasil). Realização Ava DuVernay, Argumento Paul Webb. Elenco David Oyelowo, Tom Wilkinson, Carmen Ejogo, Tim Roth, Oprah Winfrey. Lançamento EUA 25 de dezembro de 2014, Brasil 5 de fevereiro de 2015. O sítio não indica restrições ao uso da imagem na data visitada. Disponível em http://politicandors.blogspot.com.br/2015/07/resenha-selma.html acesso em 05/03/2016.

Nem todos os muros que estamos construindo nesse mundo contemporâneo são dados pela negativa da possibilidade de comunicação. Sua potência avassaladora e a distribuição desigual do acesso aos bens sociais freneticamente produzidos criam outros muros, invisíveis, entre nós. São inúmeros, alguns marcados paradoxalmente pela excelência e pela opulência de um lado e pela miséria de outro.

As maiores distâncias, que também existem, não estão de fato nos eventos catastróficos dos jornais e telejornais. Residem em nosso cotidiano, sob a escuridão de olhares que não enxergam os fossos sobre os quais pisam. Referem-se a toda a situação institucional do ensino, da saúde, do saneamento e dos modos de ocupação e transformação do território brasileiro. Temos nossos muros que segregam o espaço coletivo e institucional da cidade, e são tão concretos quanto aqueles que defendem estadunidenses e israelenses de seus vizinhos.

Em 2005, segundo o Censo Escolar, havia 49 milhões de alunos matriculados em nossas escolas públicas 21 (o que ultrapassava a população de três países: Chile, Paraguai e Uruguai), em um contexto em que se estimava (em 2000) o número de analfabetos com mais de 15 anos em 10,36 milhões de brasileiros. Nossas escolas públicas, entretanto, não são o lugar de formação das elites, exceto quando se chega à Universidade. Apenas conjunto muito restrito de instituições confessionais e empresas privadas diferenciam-se pela qualidade de ensino e pesquisa, ao lado das universidades públicas.

Porcentagem pequena da população atinge o ensino superior, ficando reservada à grande maioria dessa (pequena) porcentagem vagas em empresas (universidades?) com um compromisso tênue com o que chamamos de ensino, ainda que haja projetos um pouco mais tolerantes com as exigências da qualidade mínima ou média nesse mercado. Nossa excelência em escolas públicas contrasta com a distância em que nos encontramos dos demais níveis de ensino.

Mais do que isso, nos diversos níveis do ensino e também no universitário, as práticas acadêmicas 22 contrastam com a dimensão das necessidades concretas e oportunidades de ação que nos cercam, com a preparação de quadros para enfrentá-las. Muito embora saibamos bem traduzi-las em discursos que interpretam suas causas, a universidade frequentemente trata a sociedade e é tratada pela sociedade como uma realidade à parte. Também as necessidades, aviltadas diante de imensos desvios de dinheiro pela ganância de políticos e empresários, não são enfrentadas. Mas não por falta de dinheiro ou conhecimento, porque existem os recursos. Trata-se de exacerbação pela ganância desenfreada e pelo hedonismo.

6. em tempo real

Todas as novidades desse Admirável Mundo de consumo são transmitidas em tempo real pela televisão, pela internet e pela telefonia celular. Ver o homem pousando na Lua ou assistir na TV a copa do mundo de 1970, façanhas notáveis, havia tornado difícil imaginar o evento grandioso que deve ter sido a primeira transmissão de copa do mundo por rádio em 1938! Tão pouco tempo (apenas 32 anos) separa os dois acontecimentos! A partir da década de 1990 uma infinidade de aparatos técnicos invadiu e transformou radicalmente o cotidiano nas capitais brasileiras, e até mesmo a forma de relacionamento pessoal, profissional, produtivo, comercial, afetivo.

Diversos indicadores de consumo e acesso a bens podem ser usados, considerando sua distribuição regional por domicílios, como presença de aparelhos de rádio, televisão, computadores, internet, e outros indicadores. Essa cartografia, com dados obtidos nas pesquisas do IBGE e outros institutos, evidenciam tanto os aspectos de concentração, como os de irradiação que esses bens promovem, já que disseminam padrões de comportamento, sociabilidade e desejos, formam padrões de consumo, consensos, nichos identitários, padrões de linguagem e representação social, valores, com imenso poder de introjeção.

Esther Hamburger 23, 1998, apresenta três mapas com uma evolução dos domicílios com televisão nos anos de 1970 (concentrados sobretudo no Sudeste e com grande densidade no Sul), 1980 (onde se densifica ainda mais no sudeste e no sul, mas com dispersão significativa pelo sul de Minas e Goias e um eixo de expansão noroeste por Mato Grosso do Sul e Rondônia, mas já com ampla dispersão pelo território nacional) e 1990, com uma dispersão por todo o território nacional. Mostram também a disseminação de hábitos de consumo, que vão se tornando corriqueiros na vida cotidiana, cujos fluxos simbólicos e de objetos é complexo no espaço. A Figura 19 ilustra distribuição de televisores por domicílios, baseado em dados do IBGE para 2001. A tabela 1, obtida na mesma fonte, indica a porcentagem de domicílios com telefone, televisão, microcomputador e acesso a internet a partir de 2001.

Figura 19. Porcentagem de televisores por domicílios, baseado em dados do IBGE para 2001.
“É importante observar que a proporção da cobertura da televisão é superior à relativa a geladeiras. Em 2001, a quantidade de domicílios com televisão era de 89,0%, enquanto que a de domicílios com geladeiras era de 85,1%. Já em 2011, estes números alcançaram 97,2% e 95,8%, respectivamente”.
Fonte: O crescimento Socioeconômico do Brasil e a Radiodifusão. ABERT (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão). O sítio não apresenta restrição de direitos sobre uso da imagem. Disponível em http://www.abert.org.br/web/index.php/dados-do-setor/estatisticas/radiodifusao-socioeconomico acesso em 04/03/2016

Tabela 1. Porcentagem de domicílios com rádio, televisão, microcomputador e acesso a internet entre 2001 e 2011, com dados do IBGE.
“Em 2011 (veja o quadro 3.5), existiam mais domicílios com TV (97,20%) do que com rádio (83,80%). Entretanto, na área rural, o rádio se assemelha muito com a televisão em termos de penetração, na proporção de 84,2% para TV e de 82,3% para rádio, isso de acordo com o site especializado Teleco. A grande maioria dos domicílios possui TV a cores (95,3%). Apenas 0,4% dos domicílios possuem TV em preto e branco (2009).”
Fonte: O crescimento Socioeconômico do Brasil e a Radiodifusão. ABERT (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão). Disponível em http://www.abert.org.br/web/index.php/dados-do-setor/estatisticas/radiodifusao-socioeconomico acesso em 04/03/2016

A exclusão, gradualmente, evidencia-se como é (mais difícil de ser percebida), não se trata de objetos, mas de localizações em sentido amplo, no espaço, no social, nas possibilidades de inserção e fruição. Essa subordinação (ou diálogo em alguns casos) das esferas da sociabilidade à economia, à tecnologia e ao consumo, atinge os hábitos e o corpo. Mais do que isso, não só atinge a natureza imensamente incorporada como símbolo ou recurso a uma lógica institucional e de mercado, como se poderia dizer que a natureza, tal como ainda a conhecemos e entendemos, de certo modo já não existe mais.

A partir de 1996, com a clonagem de Dolly, o imaginário da ficção científica aproxima-se do cotidiano. O avanço dos transgênicos, da clonagem, do comércio de órgãos, o turismo ecológico 24 e agora o orbital, mostram um novo domínio do mercado sobre as esferas da vida e da natureza. Esses avanços tecnológicos recolocam a questão ambiental em um novo paradigma, colhendo plenamente os frutos de sua institucionalização (SANDEVILLE JR. 1999a). Ampliam-se as implicações éticas da nova tecnologia.

A ECO 92 começa a colocar a descoberto a natureza desse paradigma, cuja construção ideológica na forma atual nem sempre é devidamente avaliada, gerando um consenso curioso em uma época de dissenso consentido. Mas isso não pode ser generalizado para todo o mundo, ou todos os lugares, prevalecendo diferenças importantes em qualquer escala que observarmos.

Enquanto nos divertimos ou trabalhamos, é necessário perguntar e perscrutar: que mundo já está presente e não nos permitimos dar conta?

7. para onde nossas decisões nos conduzem?

Quais valores são transformados e transformadores? Quais realidades, hoje, são as que já estão presentes, mas não vemos? Quais são os muros que hoje nos são dados a construir, ainda que discordando?

Lembrar, nesse sentido e em tal contexto, é mais do que nostalgia ou rememorar, é a possibilidade de estar presente em um hoje alongado, de compreender, de atuar em um tempo mais amplo do que aquele oferecido pela técnica e pelo negócio.

O período aqui referido, desde o final trágico da Segunda Guerra, ultrapassa por pouco 70 anos, quando escrevo este ensaio. Um tempo inferior à duração esperada da vida humana, em uma condição sob muitos aspectos sem precedentes. Da sociedade de consumo e da contracultura à globalização, percebo que mitos como esses não dão conta dos fatos a que se referem.

Por vezes, tenho a impressão de estar havendo um contínuo lasseamento dos ideais coletivos a par de uma introjeção e institucionalização (normalização?) crescente de formas de controle do comportamento. Mas vejo que não se trata só disso. Mais importante, é o que significa perceber que, também pode ser verdade, os ideais estão tão vivos hoje, quanto sempre estiveram lasseados. Esta última ideia não nos furta a necessidade, sempre posta aos homens, de terem de, cada um à sua época, posicionarem-se perante os valores e práticas. Mas representa a obrigação de percebermos qual a responsabilidade e oportunidade com que nos defrontamos hoje. Mas em um hoje ampliado, histórico e existencial.

Compreender-me (compreendermo-nos) em mudança propõe-me o problema do que deve permanecer, para que a institucionalização a que somos cobrados seguidamente não se torne conformação, esvaziamento, traição de si mesmo por si mesmo. Como minhas mudanças se inserem nas mudanças em curso? O amadurecimento – sempre associado a compromisso e progresso – é uma forma elaborada de traição do que se foi? Ou o compromisso ainda pode ser uma forma criativa? Amadurecer é conformar-se a esse estado de coisas ou é, justamente, entendendo na medida do possível, preservar valores fundamentais diante de um caudal que se oferece como inexorável?

As questões, como se vê, não são meramente pessoais. Há uma possibilidade de ampliação na distribuição de recursos sociais e um direcionamento que redunda em suas ausências. Há uma padronização dos procedimentos, oportunidades, linguagens, e da sedução do pensamento pela promessa de sua expressão multifacetada em nichos pulverizados, ao enxertar-se no sistema produtivo de bens ditos imateriais, que trariam ganhos materiais e simbólicos a seus operadores, que subordinam-se assim a essa lógica como se fossem peças criativas ocupadas consigo mesmas.

Mas há um engano, não são imateriais. São concretas, e portanto, consequentes. Há outro engano, a matéria não esgota-se em si, nem o imaterial no plano dos pensamentos e desejos. Estamos caminhando com muita pressa, como se soubéssemos aonde vamos, e sequer sabemos as consequências desses atos ampliados na multidão.

 

__________________________________________
notas

1 Atualização parcial do texto base do memorial apresentado na Livre Docência em 2010, elaborado a partir de reelaboração crítica de texto de 2005.

2 ARENDT, Hannah. A condição humana. Trad. Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense, 2004 (1958) pg. 9

3 Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, filme anglo-americano de 1964, filme no qual Peter Sellers recebeu US$ 1 milhão e a voz de Darth Vader ainda é James Earl Jones no papel do tenente Lothar Zogg.

4 “Aldeia Global é um termo criado pelo filósofo canadense Herbert Marshall McLuhan, com o intuito de indicar que as novas tecnologias eletrônicas tendem a encurtar distâncias e o progresso tecnológico tende a reduzir todo o planeta à mesma situação que ocorre em uma aldeia: um mundo em que todos estariam, de certa forma, interligados.[1] A expressão foi popularizada em sua obras “A Galáxia de Gutenberg”(1962) e, posteriormente, em “Os Meios de Comunicação como Extensão do homem”(1964).” Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Aldeia_Global acesso em 27/02/2016. Entre meados de 1960 e meados de 1970 McLuhan (1911-1980) despertou grande interesse, unindo aspectos da contracultura e do pop com as tecnologias contemporâneas na sociedade de consumo, preconizando com certa empolgação suas possibilidades comunicacionais.

5 “Então o Senhor, da sua parte, fez chover do céu enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra. E subverteu aquelas cidades e toda a planície, e todos os moradores das cidades, e o que nascia da terra”. Gn 19.24,25. Aqui temos um julgamento divino. O que acontece quando uma nação sente-se no lugar de Deus, decidindo a vida e a morte?

6 A Folha de São Paulo, 06/08/05, p. A6, menciona que morreram 140.000 a 237.000 pessoas só em Hiroshima (70.000 no ato segundo o mesmo jornal, 07/08/05, p. A24, os demais em poucos meses).

7 Na edição de 07 de agosto de 2005, há uma estapafúrdia matéria assinada por RBN com o título “Persiste debate sobre a necessidade da bomba”, na qual a catástrofe é tratada como uma “polêmica”, em que o autor diz que para entender o que aconteceu, para além da indignação, seria necessário “tentar compreender a situação real em agosto de 1945”. Mas isso foi uma linha editorial, a página ao lado é inteiramente dedicada às atrocidades, que também aconteceram do Japão contra a China e Coréia.

8 Segundo a Folha de São Paulo, 06/08/05, p. A6.

9 http://www.diarioon.com.br/arquivo/4149/internacional/internacional-36603.htm

10 “The photographical reproduction of this work is covered under the article 35.2 of the Royal Legislative Decree 1/1996 of April 12, 1996, and amended by Law 5/1998 of March 6, 1998, which states that: Works permanently located in parks or on streets, squares or other public thoroughfares may be freely reproduced, distributed and communicated by painting, drawing, photography and audiovisual processes.”

11 Declaração de Yuri Gagarin, cosmonauta soviético que se tornou o primeiro homem a orbitar a Terra.

12 “Apesar da comunicação móvel ser conhecida desde o início do século XX, somente em 1947, passou a ser desenvolvida pelo Laboratório Bell, nos EUA. No final da década de 1970 e início de 80, o Japão e a Suécia ativam seus serviços com tecnologia própria e em 1983 a companhia americana AT&T criou uma tecnologia específica implantada pela primeira vez em Chicago”. Disponível em http://www.museudotelefone.org.br/celular.htm .

13 Estas contagens de anos tomam como referência 2016.

14 Temos outros antecedentes, por exemplo, os Teatros Distritais da Prefeitura, criados na década de 50 no Convênio Escolar, mas isso não muda o dado básico da estrutura urbana a que nos referimos.

15 O plano é de 1967, mas o início de obras deu-se na década 70, quando o Convênio entre a Prefeitura e o BNH possibilitou a canalização de cerca de 60 km de córregos entre 74 e 75.

16 A população pelo Censo de 2010 é estimada em 10.434.25210.659.386 habitantes.

17 http://www.seade.gov.br/produtos/msp/dem/dem9_008.htm

18 Em âmbito nacional, o ano de 1984 foi um marco quando a praça passou a ser novamente pública em toda sua extensão, e os estudantes correndo da polícia e se reagrupando aqui e ali da década anterior foram substituídos nas áreas centrais urbanas pelo comício-show-cívico e pela eleição livre para presidente (este, triste memória) em 1989.

19 SANDEVILLE JR., Euler. Memorial para um, ano novo e para um novo milênio. São Paulo: Revista Brasil, 2002b.

20 O muro de Berlim tinha “apenas” 155 km de extensão e 3,60 metros de altura, já “O Muro da Cisjordânia é uma muralha que separa Israel da Cisjordânia, realizada pelo governo israelense. Uma pequena parte do muro (cerca de 20%) coincide com a antiga Linha Verde; os 80% restantes situam-se em território cisjordaniano, onde adentra até 22 km, em alguns lugares, para incluir colonatos de Israel densamente povoados. Com extensão de 350 km, consiste numa rede de vedações com trincheiras rodeadas por uma área de exclusão média de 60 metros (90%) e por paredes de concreto de até 8 metros de altura (10%). Em certos lugares, como na região da cidade palestina de Qalqiliya, o muro chegaria à altura de oito metros. Em alguns pontos, a construção tem 45 metros de largura; em outros, pode chegar a 75 ou 100 metros. A muralha deve conter também dispositivos eletrônicos capazes de detectar infiltrações, fossas antitanques e pontos de observação e patrulha” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Muro_da_Cisjord%C3%A2nia, acesso em agosto de 2005).

21 “Os números obtidos no Censo Escolar de 2005 revelam a abrangência da cobertura deste levantamento. Foram contabilizados, aproximadamente, 56,5 milhões de matrículas e 207 mil estabelecimentos de ensino, distribuídos pelas diferentes etapas e modalidades da educação básica. Os números evidenciam também a magnitude da cobertura do atendimento escolar público, mostrando que 49 milhões de alunos da educação básica estudam em estabelecimentos públicos, sendo 25,3 milhões na rede municipal e 23,6 milhões na rede estadual.” INEP, 2006:32.

22 SANDEVILLE JR., Euler. Disciplina e Conhecimento. In Anais do Seminário Ensino de Arquitetura eUrbanismo. São Paulo: FAU USP, 2007a., SANDEVILLE JR., Euler. Fundamentos In: Seminário Ensino Arquitetura e Urbanismo São Paulo: FAUUSP, 2007b., SANDEVILLE JR., Euler. Participação e universidade. Universidade e participação In: Seminário Nacional Paisagem e Participação: Práticas no Espaço Livre Público, São Paulo, 2007c, SANDEVILLE JR., Euler. Paisagens vivenciadas, educação-pesquisa-aprendizado em ação. Anais do 10 ENEPEA – Encontro Nacional de Ensino de Paisagismo em Escolas de Arquitetura. Porto Alegre: PUCRS, 2010

23 HAMBURGER, Esther. Diluindo fronteiras: a televisão e as novelas no cotidiano. In NOVAES, Fernando (org). História da vida privada no Brasil, vol. 4. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

24 Sobre Turismo denominado ecológico: SANDEVILLE JR., Euler, SUGUIMOTO, Flávia Tiemi. Ecoturismo e (Des) Educação Ambiental. Revista Brasileira de Ecoturismo, v.3, p.1, 2010.

 


cite este artigo:
SANDEVILLE JR., Euler. “A Terra azul…Que mundo é esse?”. Disponível em http://anaturezaeotempo.net.br/, 2016, acesso em XX/XX/201X.

 


 

 

 

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