OS TRABALHOS E OS DIAS
HESÍODO
ref. 750-650 aC

1539-Impressão de Os Trabalhos e os Dias de Hesiodo; fatim por Nicolaus Valla, Basileae. Disponível em 1539-Impressão de Os Trabalhos e os Dias de Hesiodo; fatim por Nicolaus Valla, Basileae

Proêmio

Musas da Piéria, que dais glória com canções,

vinde; em hinos cantai Zeus, vosso pai.

Através dele os homens mortais ficam igualmente sem fama e famosos;

deles se fala ou se silencia por meio de Zeus grande.

Ele facilmente fortalece, facilmente os fortes esmaga; (5)

facilmente diminui o ilustre e exalta o obscuro,

endireita o torto e o arrogante enfraquece,

Zeus altitonante que habita excelsos palácios.

Escuta, Zeus, vendo e ouvindo, e com justiça endireita as sentenças!

Quanto a mim, gostaria de dizer a Perses verdades. (10)

As duas Lutas

Ora, não houve apenas um nascimento de Lutas, mas sobre a terra

existem duas. Quando alguém observa uma delas, considera louvável;

a outra é digna de censura: elas têm ânimos diversos.

Pois uma promove a guerra má e a disputa,

é a cruel. Nenhum mortal a ama, mas por necessidade, (15)

pela vontade dos deuses, têm de honrar a Luta pesada.

A outra, a primeira, gerou-a a Noite escura,

e o filho de Crono, Zeus sentado em alto trono,

habitante do éter, colocou-a

nas raízes da terra; é bem melhor para os homens:

ela leva ao trabalho mesmo a pessoa sem meios. (20)

Pois um homem sente falta de trabalho ao olhar para outro

que, rico, apressa-se a arar, plantar

e administrar bem sua casa, e um vizinho procura igualar o outro

que se apressa em alcançar a fartura. Essa Luta é boa para os mortais.

O oleiro irrita-se com o oleiro, o carpinteiro com o carpinteiro; (25)

o mendigo inveja ao mendigo, o poeta ao poeta.

Ó Perses, coloca essas coisas no teu espírito,

e que a Luta que se compraz no mal não te afaste do trabalho

para assistir a litígios, atento aos discursos da praça pública.

Na verdade, litígios e discursos pouco importam (30)

a quem não possui em estoque sustento abundante

colhido no tempo certo, os frutos de Deméter, que a terra traz.

Estando deles saciado, poderias promover litígios e disputas

sobre bens alheios. Não te será possível, contudo, uma segunda vez

assim agir, mas, sem mais, decidamos nosso litígio (35)

com julgamentos justos, que vêm de Zeus, os melhores.

Pois de fato já tínhamos dividido a herança, e tu muitas outras coisas

agarravas e levavas, prestando grandes honras aos reis

devoradores de presentes, que se dispõem a dar esse veredicto.

Tolos! Não sabem quanto a metade é maior do que o todo, (40)

nem quão grande proveito existe na malva e no asfódelo.

Prometeu e P andora

É que os deuses mantêm escondido dos humanos o sustento.

Pois senão trabalharias fácil, e só um dia,

e, mesmo ocioso, terias o bastante para o ano.

Logo colocarias o timão sobre a lareira,

os trabalhos dos bois e das mulas incansáveis desapareceriam.

Mas Zeus escondeu-o, encolerizado em seu coração,

porque o enganara Prometeu de curvo pensar.

Por isso maquinou amargos cuidados para os humanos,

e escondeu o fogo. Por sua vez, o bom filho de Jápeto

roubou-o do sábio Zeus para dá-lo aos humanos

numa férula oca, passando despercebido a Zeus a quem alegra o trovão.

Encolerizado, disse-lhe Zeus que ajunta nuvens:

 

“Filho de Jápeto, mais que todos fértil em planos,

alegras-te de ter roubado o fogo e enganado minha inteligência,

o que será uma grande desgraça para ti próprio e para os homens futuros.

Para compensar o fogo lhes darei um mal, com o qual todos

se encantarão em seu espírito, abraçando amorosamente

seu próprio mal.”

 

Assim falou, e riu alto o pai de homens e deuses.

Então ordenou ao ilustre Hefesto que o mais rápido possível

misturasse terra com água e ali infundisse fala e força humanas,

e que moldasse, de face semelhante à das deusas imortais,

uma forma bela e amável de donzela; depois ordenou a Atena

que lhe ensinasse trabalhos, a tecer uma urdidura cheia de arte;

a Afrodite dourada, que lhe espargisse a cabeça com graça, (65)

penoso desejo e inquietação que devora os membros.

Que nela colocasse uma mente desavergonhada e um caráter fingido,

ordenou a Hermes mensageiro, o matador do monstro Argos.

Assim falou, e eles obedeceram a Zeus soberano, filho de Crono.

Logo o célebre deus coxo moldou-a da terra, (70)

à semelhança de uma virgem respeitável, seguindo a vontade

do filho de Crono;

deu-lhe um cinto e enfeitou-a a deusa Atena de olhos brilhantes;

as deusas Graças e augusta Persuasão

envolveram seu corpo com joias douradas;

as Horas de belas cabeleiras coroaram-na com flores primaveris;

Palas Atena ajeitou no seu corpo todo o ornamento.

Então, o mensageiro matador de Argos fez em seu peito

mentiras, palavras sedutoras e um caráter fingido,

por vontade de Zeus que grave troveja;

assim o arauto dos deuses nela colocou linguagem, (80)

e chamou essa mulher

Pandora, porque todos os que têm moradas olímpias

deram essa dádiva, desgraça para os homens que vivem de pão.

 

Depois, quando completou o irresistível profundo engano,

o Pai enviou a Epimeteu o célebre matador de Argos,

o rápido emissário dos deuses, levando o presente. E Epimeteu não (85)

pensou no que lhe dissera Prometeu: nunca um presente

aceitar de Zeus olímpio, mas mandar

de volta, para que não venha a ser um mal para os mortais.

Mas ele, depois de o receber, bem quando tinha o mal, compreendeu.

Antes, de fato, as tribos dos humanos viviam sobre a terra (90)

sem contato com males, com o difícil trabalho

ou com penosas doenças que aos homens dão mortes.

{Rapidamente em meio à maldade envelhecem os mortais.}

Mas a mulher, removendo com as mãos a grande tampa de um jarro,

espalhou-os, e preparou amargos cuidados para os humanos. (95)

Sozinha ali ficava a Antecipação, na indestrutível morada,

dentro, abaixo da boca do jarro, e para fora não

voou. Pois antes baixou a tampa do jarro

por vontade de Zeus que ajunta nuvens, o detentor da égide.

Mas outras incontáveis tristezas vagam entre os homens. (100)

Na verdade, a terra está cheia de males, cheio o mar;

doenças para os humanos, algumas de dia, outras à noite,

por conta própria vêm e vão sem cessar, males aos mortais levando

em silêncio, já que privou-as de voz Zeus sábio.

Assim, de modo algum pode-se escapar à inteligência de Zeus. (105)

O mito das cinco raças

Mas se queres te farei em resumo outro relato,

bem e habilmente narrado, e tu coloca-o no teu espírito:

como nasceram da mesma fonte os deuses e os humanos perecíveis.

 

Primeira de todas entre os humanos de fala articulada,

fizeram os imortais que têm moradas olímpias uma raça de ouro. (110)

Eles existiram no tempo de Crono, quando este reinava no céu;

como deuses viviam, o coração sem cuidados,

sem contato com sofrimento e miséria. Em nada a débil

velhice estava presente, mas, sempre iguais quanto aos pés e às mãos,

alegravam-se em festins, fora de todos os males, (115)

e morriam como que vencidos pelo sono. Tudo o que é bom

possuíam: a terra fecunda produzia seu fruto

espontaneamente, muito e de bom grado. Eles, voluntária

e tranquilamente repartiam os trabalhos, tendo bens abundantes.

{Ricos em rebanhos, eram queridos dos deuses (120)

bem-aventurados.}

Mas desde que a terra encobriu essa raça,

eles são divindades pela vontade de Zeus grande,

nobres, terrestres, guardiões dos humanos perecíveis;

{eles vigiam as sentenças e as cruéis ações,

vestidos de bruma, vagando por toda a terra,} (125)

distribuidores de riquezas: obtiveram esse privilégio de reis.

Então uma segunda raça, e muito pior, depois

fizeram os que têm moradas olímpias, a de prata,

que não se assemelhava à de ouro nem em corpo nem em pensamento.

Mas o filho junto à mãe querida por cem anos (130)

era nutrido, um grande tolo brincando em sua casa.

Mas quando tornavam-se adolescentes e alcançavam a flor da idade,

viviam por pouco tempo, padecendo dores

com sua insensatez, pois não podiam conter uma presunçosa insolência

uns para com os outros, nem queriam servir aos imortais (135)

nem sacrificar nos santos altares dos bem-aventurados,

como é justo para os humanos, conforme os costumes. Depois

Zeus filho de Crono, encolerizado, escondeu-os, porque não honravam

os deuses bem-aventurados que habitam o Olimpo.

Mas desde que a terra encobriu também essa raça, (140)

eles são chamados bem-aventurados mortais subterrâneos,

secundários, mas de qualquer modo também acompanhados de honra.

E Zeus pai uma outra raça de humanos de fala articulada,

a terceira,

de bronze fez, em nada igual à de prata,

mas nascida de freixos, terrível e vigorosa; (145)

eles se ocupavam dos funestos trabalhos de Ares

e de violências, e trigo não

comiam, mas tinham um coração impetuoso, de aço.

Eram toscos; grande força física e braços invencíveis

cresciam de seus ombros sobre um corpo robusto.

Suas armas eram de bronze, de bronze suas casas, (150)

trabalhavam com bronze: negro ferro não existia.

Vencidos por suas próprias mãos,

desceram à mansão bolorenta do gélido Hades,

anônimos: também a eles, embora espantosos, a morte

negra os conquistou, e deixaram a esplendente luz do sol. (155)

Mas quando a terra encobriu também essa raça,

de novo ainda outra, a quarta sobre a terra que muitos nutre,

Zeus filho de Crono fez, mais justa e valorosa,

a raça divina dos homens heróis, que são chamados

semideuses, a geração anterior à nossa na terra imensurável.

Esses, destruíram-nos a guerra má e o combate medonho,

uns sob as muralhas de Tebas de sete portas, terra de Cadmo,

quando lutavam pelos rebanhos de Édipo;

outros, levando-os em naus sobre o grande abismo do mar,

para Troia, por causa de Helena de coma adorável.

Lá o termo da morte envolveu, sim, alguns deles;

a outros, conferindo-lhes vida e moradia à parte dos humanos,

Zeus pai, filho de Crono, estabeleceu-os nos limites da terra.

E eles, o coração sem cuidados, habitam

as ilhas dos bem-aventurados, junto ao Oceano

de fundos redemoinhos,

afortunados heróis, para quem um fruto doce como o mel,

que floresce três vezes ao ano, a terra fecunda traz.

Longe dos imortais sobre eles reina Crono. (173a)

{Pois o próprio] pai de deuses e [homens] libertou[-o,

e agora, já] com eles, tem honra, como [convém.

Então Zeus] fez outra raça [de humanos de fala articulada,

a daqueles que hoje] têm nascido sobre [a terra que muitos nutre.}

Que eu não mais fizesse parte então da quinta raça

de homens, mas tivesse morrido antes ou nascido depois. (175)

Pois a raça agora é bem a de ferro. Nem de dia

terão pausa da fadiga e da miséria, nem à noite deixarão

de se consumir: os deuses lhes darão duras preocupações.

Mas mesmo para tais homens hão de se misturar bens aos males.

Zeus destruirá também essa raça de humanos de fala articulada, (180)

quando acabarem nascendo já com as têmporas grisalhas.

Nem o pai será concorde com os filhos, nem os filhos com o pai,

nem hóspede com anfitrião, nem companheiro com companheiro;

nem um irmão será querido, tal como era antes.

Desprezarão os pais logo que envelheçam, (185)

e vão repreendê-los proferindo duras palavras,

os cruéis, ignorando a vingança divina; e nem mesmo

dariam aos velhos pais retorno pelo alimento que tiveram na infância.

O direito da força: um saqueará do outro a cidade.

Nenhum apreço haverá por quem é fiel aos juramentos, pelo justo (190)

ou pelo bom: antes o malfeitor e o homem-violência

honrarão. A sentença estará na força; reverência

não existirá. O cobarde fará mal ao homem de maior valor

com discursos tortuosos, e a seguir dirá “juro”.

A inveja todos os humanos miseráveis (195)

acompanhará, voz dissonante, face odiosa, comprazendo-se no mal.

Será então que, da terra de largos caminhos, partindo para o Olimpo,

a bela tez a cobrir com véus brancos,

irão ter com a tribo dos imortais, deixando os humanos,

Reverência e Indignação. E ficarão para trás dores amargas (200)

para os humanos perecíveis: não haverá defesa contra o mal.

A justiça

Agora uma fábula narrarei para os reis, sábios que sejam.

Assim disse um falcão a um rouxinol de colo pintalgado

que arrebatara com suas garras e levava bem no alto entre as nuvens,

e que, trespassado pelas garras recurvas, pateticamente (205)

chorava; o falcão lhe disse, com ar superior:

 

“Ó desgraçado, por que gritas? Alguém muito superior

agora te domina.

Irás aonde eu te levar, embora sejas poeta:

farei de ti meu jantar, ou, se quiser, te libertarei.

Insensato é quem quer medir-se com os mais fortes. (210)

É privado da vitória e, além da vergonha, dores padece.”

Assim falou o falcão de rápido voo, pássaro de longas asas.

Ó Perses, ouve a Justiça e não aumentes a desmedida.

A desmedida é um mal para um mortal pobre, e nem o nobre

pode carregá-la com facilidade, mas é abatido por seu peso (215)

ao deparar-se com Desvarios. O outro caminho, para chegar

ao justo, é melhor; a justiça sobrepuja a desmedida

quando chega ao fim: sofrendo, o tolo o compreende.

Pois o Juramento, a correr, segue de perto as sentenças distorcidas.

Ouve-se o clamor da Justiça arrastada por onde a (220)

conduzem os homens

devoradores de presentes, e julgam com sentenças distorcidas.

Ela os acompanha deplorando a cidade e os costumes do povo,

vestida de bruma, levando o mal aos humanos

que a repelem e não a distribuem retamente.

Os que para estrangeiros e conterrâneos dão sentenças (225)

retas, e em nada se desviam do justo,

para esses a cidade prospera e nela o povo floresce;

na terra vigora a Paz nutriz de jovens, e jamais para eles

Zeus que vê longe reserva a penosa guerra;

jamais aos homens de retas sentenças acompanham a Fome (230)

e ο Desvario; em festins eles repartem os frutos de seus trabalhos.

Para eles a terra produz meios de vida abundantes;

nas montanhas o carvalho

produz, no alto, a glande, e, no meio, abelhas;

as ovelhas de espesso tosão ficam carregadas de lã.

As mulheres geram filhos semelhantes aos pais; (235)

prosperam continuamente com bens; e em naus não

partem: a terra fecunda produz seu fruto.

Mas os que se ocupam da perversa desmedida e de cruéis ações,

o filho de Crono, Zeus que vê longe, lhes reserva uma pena.

Frequentemente até mesmo toda a cidade (240)

sofre com um homem mau,

quem quer que seja, que peca e maquina iniquidades.

O filho de Crono lhes traz do céu grande desgraça,

fome e ao mesmo tempo peste, e o povo perece;

as mulheres não dão à luz e as casas minguam

pela prudência de Zeus olímpio. Mas outras vezes

ele lhes destrói o vasto exército ou mesmo a muralha,

ou o filho de Crono os faz pagar com as naus no mar. (245)

Ó reis, refleti também vós mesmos sobre essa lei:

perto, entre os humanos, em verdade, estão

os imortais, e observam quantos com sentenças distorcidas (250)

prejudicam uns aos outros, sem se importar com o olhar dos deuses.

Pois sobre a terra que muitos nutre são trinta mil

imortais a serviço de Zeus, guardiões dos humanos perecíveis.

Eles vigiam as sentenças e as cruéis ações,

vestidos de bruma, vagando por toda a terra. (255)

Justiça é virgem nascida de Zeus,

nobre e venerável para os deuses que habitam o Olimpo;

e toda vez que alguém a fere, acusando tortamente,

imediatamente ela senta-se ao lado de Zeus pai, filho de Crono,

e canta os intentos injustos dos homens, para que pague (260)

o povo pela arrogância dos reis que, tramando ruínas,

desviam a justiça de seu caminho, a falar tortamente.

Observando tais coisas, reis, endireitai vossas palavras,

ó devoradores de presentes, e esquecei de todo as sentenças distorcidas.

Para si próprio faz mal o homem que faz mal a outrem, (265)

e um mau intento é o pior para quem por ele se decidiu.

O olho de Zeus, tudo vendo e tudo compreendendo,

também agora isto, se quiser, observa, e não lhe escapa

qual de fato é esta justiça que a cidade pratica internamente.

Agora, eu próprio não quero mais entre os humanos ser justo, (270)

nem meu filho, já que é mau ser um homem justo

se quem é mais injusto obtiver maior vantagem da justiça:

mas de modo algum penso que Zeus prudente dará às coisas tal conclusão.

Ó Perses, coloca essas coisas no teu coração,

e agora dá ouvidos à Justiça, e esquece de todo a força. (275)

Pois o filho de Crono fixou para os humanos esta lei:

que peixes, feras e pássaros alados

devorem-se uns aos outros, já que justiça não há entre eles;

mas para os humanos deu a justiça, que é de longe o melhor,

pois se alguém quiser dizer coisas justas (280)

consciente disso, Zeus que vê longe lhe dá prosperidade.

Mas quem em testemunho deliberadamente fizer um juramento

e mentir, ferindo a justiça, erra por cegueira incurável,

e depois deixa uma descendência mais fraca;

a descendência de um homem fiel aos juramentos será melhor. (285)

Uma ética do trabalho

Eu falarei com a melhor das intenções, ó Perses, grande tolo:

miséria aos montes te é possível tomar

facilmente: plano é o caminho, e ela mora bem perto.

Mas na frente da prosperidade colocaram o suor os deuses

imortais, e longa e íngreme é a estrada para ela, (290)

e espinhosa no início; quando chega-se ao alto,

em seguida já é fácil, por difícil que seja.

Este é o homem de todo excelente: quem tudo compreende por si só,

pensando no futuro e nas coisas que levam a um fim melhor.

Também é nobre quem é convencido por quem diz boas coisas; (295)

mas quem nem compreende por si só nem, ouvindo a outro,

coloca no espírito seus conselhos, esse é um homem inútil.

Mas tu, sempre lembrado do meu conselho,

trabalha, Perses, ó divina prole, para que a Fome te

odeie, e te ame Deméter de bela coroa, (300)

a venerável, e encha o teu celeiro de alimento.

A Fome é em tudo a companheira do homem ocioso;

deuses e homens se indignam com quem ocioso

vive, semelhante em caráter aos zangões sem ferrão,

que consomem o esforço das abelhas, ociosos (305)

a comer; para ti seja caro organizar os trabalhos regrados,

de modo que os teus celeiros se encham de alimento no tempo certo.

Com trabalho os homens tornam-se ricos em rebanhos e opulentos,

e trabalhando serás muito mais querido dos imortais

e dos mortais: muito eles odeiam os ociosos. (310)

O trabalho não é nenhuma desonra; desonra é não trabalhar.

E se trabalhares, logo o ocioso procurará igualar

tua riqueza: ao rico acompanham mérito e prestígio.

Qualquer que seja tua fortuna, trabalhar é preferível,

se o teu louco espírito dos bens alheios (315)

desvias para o trabalho e atentas para a subsistência, como te ordeno.

A vergonha não é boa para cuidar de um homem necessitado,

a vergonha, que aos homens muito prejudica e beneficia:

a vergonha liga-se à pobreza tal como a audácia à prosperidade.

Bens não são para roubar: os presentes dos deuses (320)

são bem melhores.

Pois se alguém pela força do braço grande fortuna conquista,

ou a arrebata pela língua, coisas que muitas vezes

acontecem, toda vez que a cobiça engana a inteligência

dos humanos, e a Impudência expulsa a Reverência,

facilmente os deuses enfraquecem tal homem (325)

e rebaixam sua casa,

e a prosperidade o acompanha por pouco tempo.

O mesmo acontece a quem maltratar um suplicante ou um hóspede,

ou subir à cama de seu próprio irmão

para os abraços clandestinos da esposa deste, ato sem cabimento,

ou quem impensadamente ofender teus filhos órfãos, (330)

ou quem ao pai idoso no malvado limiar da velhice

injuriar, dirigindo-se a ele com palavras duras.

Contra eles indigna-se o próprio Zeus, e no fim

dá uma dura resposta às ações injustas.

Tu, porém, delas afasta por completo o louco espírito. (335)

De acordo com tua capacidade faz sacrifícios aos deuses imortais

de modo limpo e puro, e queima brilhantes coxas;

outras vezes torna-os favoráveis com libações e incenso,

tanto ao te deitares como quando a sagrada luz do dia chegar,

de forma que eles tenham coração e espírito para ti favoráveis, (340)

e tu compres a gleba dos outros, não os outros a tua.

Relações sociais ; a família

Aquele que é amigável, chama-o para o banquete; quem é hostil, deixa-o;

sobretudo chama aquele que mora perto de ti.

Pois se te acontece alguma coisa na tua terra,

os vizinhos vêm sem atar o cinto, enquanto parentes se preparam.

O mau vizinho é penoso, tanto quanto o bom é grande proveito:

tem sua parte de honra quem tem por sorte um vizinho nobre,

nem um boi se perderia se não fosse um mau vizinho.

Deves medir bem o que emprestas do vizinho, retribuir corretamente

com a mesma medida e, se puderes, mais,

para que tenhas com quem contar caso mais tarde necessites.

Não ganhes desonestamente: ganhos desonestos são iguais a desastres.

Ama a quem te ama, liga-te a quem te procura.

Doa a quem doar, e não does a quem não doar.

Doa-se a um doador, a um não-doador ninguém doa.

A Doação é boa, a Rapina, má, e doadora de morte.

O homem que, voluntariamente, doar, mesmo algo grande,

alegra-se com o presente e compraz-se em seu espírito.

Mas quem toma algo por conta própria, confiando na impudência,

mesmo que tome algo pequeno, isso gela o coração.

Pois se colocares pequeno sobre pequeno

e o fizeres com frequência, rapidamente pode tornar-se grande.

Quem acrescenta ao que tem afasta a fome ardente;

coisa guardada em casa não preocupa o homem:

e é melhor que esteja em casa, pois o que está fora perturba. (365)

É bom tomar do que está presente, penoso para o espírito

desejar o que está ausente: exorto-te a considerar tais coisas.

Farta-te no começo do jarro e quando está acabando;

no meio sê econômico: economia no fundo é desprezível.

{O salário combinado com um homem amigável (370)

lhe seja assegurado.

Mesmo com um irmão faz contrato diante de testemunha,

mas com um sorriso:

tanto confiança como desconfiança já destruíram homens.}

E uma mulher com roupa que chama a atenção para

o traseiro não te engane

a tagarelar lisonjas, a revistar o teu celeiro:

quem acredita em mulher acredita em ladrões. (375)

Que haja um filho unigênito para os bens paternos

preservar, pois assim a riqueza cresce na casa.

E que morras velho, deixando outra criança.

Ainda que facilmente Zeus possa dar indizível prosperidade para mais:

com mais gente maior é o cuidado com o trabalho,

e maior o excedente.

Se em teu peito o espírito aspira à riqueza,

assim faz, e trabalha em trabalho sobre trabalho.

Como trabalhar a terra; ensinamentos para as diversas estações

Quando as Plêiades filhas de Atlas se levantam no céu,

começa a colheita; quando se põem, a lavra;

por quarenta noites e dias elas (385)

estão escondidas; e, passando o ano, de novo

aparecem pela primeira vez na época de se afiar o ferro.

Existe esta norma para as terras cultiváveis,

para as que perto do mar se estendem e para os vales cheios de ravinas,

terreno fértil longe do mar encapelado: (390)

semearás nu, nu ararás

e nu colherás, se quiseres na estação certa

cuidar de todos os trabalhos de Deméter, para que cada

fruto cresça na estação própria, para de forma alguma depois necessitado

mendigares nas casas alheias e nada conseguires. (395)

Foi assim que agora vieste a mim; mas eu não te darei nada,

nem emprestarei a mais. Trabalha, tolo Perses,

nos trabalhos que os deuses marcaram para os humanos,

para nunca, sofrendo no espírito, com as crianças e a mulher

buscares sustento junto aos vizinhos, que não se importarão. (400)

Duas ou três vezes poderás talvez fazê-lo; mas se além disso incomodares,

coisa alguma alcançarás, e terás dito muitas coisas vãs:

inútil será tua pastagem de palavras. Mas te aconselho

a pensar no pagamento das dívidas e na defesa contra a fome.

Tem, em primeiro lugar, uma casa, uma mulher e um boi para arar (405)

(a mulher, não uma esposa, mas uma escrava que possa seguir os bois).

Faz as coisas em casa, todos os equipamentos,

para que não peças a um outro e ele recuse, tu daquilo tenhas falta,

o tempo passe e teu trabalho se perca.

Não adies para amanhã nem depois de amanhã, (410)

pois não enche o celeiro o homem negligente,

nem aquele que adia: a atenção faz o trabalho prosperar.

O homem que adia o trabalho está sempre a lutar com Desastres.

 

Quando arrefece a intensidade do sol brilhante,

seu ardor que faz suar, quando chove no outono (415)

Zeus poderosíssimo, e muda a tez dos mortais,

agora bem mais aliviada (pois é então que a estrela Sírius

sobre as cabeças dos humanos que comem e morrem passa

apenas por curto período do dia, e tem maior parcela da noite),

então a madeira cortada pelo ferro fica mais livre de caruncho, (420)

as folhas derramam-se pela terra, cessam os brotos.

Então, lembra-te, corta árvores, trabalho da estação.

Pilão de três pés corta, pisão de três braças,

eixo de sete pés: assim com certeza é adequado.

Se cortares um madeiro de oito pés, dele farás também um martelo. (425)

Corta uma roda de três palmos para uma carroça de dez,

e muitos pedaços curvados; se encontrares um em formato de teiró, leva

para casa – procura-o na colina ou no campo,

de azinheira, que na verdade é a mais forte para arar com os bois,

quando um servo de Atena a fixa no dente (430)

com pregos e, ajustando, acopla ao timão.

Faz dois arados, trabalhando em casa,

um com teiró de formato natural e outro montado — assim é bem melhor:

se quebrares um deles, atrelarás aos bois o outro.

De loureiro ou olmo são os timões mais resistentes ao caruncho, (435)

de carvalho o dente, de azinheira a teiró. Dois bois de nove anos

adquire, pois sua força não é fácil de abater,

estando na flor da idade: são os melhores para trabalhar.

Eles não vão lutar no sulco, o arado

quebrar e deixar o trabalho para trás, inútil. (440)

Que os conduza um homem robusto de quarenta anos

alimentado com um pão de quatro pedaços em oito porções,

alguém que, cuidando do trabalho, faça um sulco reto,

não mais buscando, com o olhar inquieto, outros da sua idade, mas no trabalho

mantendo o espírito; um outro, nada mais jovem, é melhor (445)

para espalhar as sementes e evitar semeadura excessiva,

pois o homem mais novo voa atrás dos da sua idade.

 

Observa quando ouvires a voz do corvo

que grasna todo ano do alto das nuvens;

ela traz o sinal para arar e para o tempo do inverno (450)

chuvoso aponta, e morde o coração do homem sem bois.

Já então engorda no curral os bois de chifres recurvos.

Pois é fácil dizer: “dá-me dois bois e um carro”,

mas fácil recusar: “mas os bois têm trabalho a fazer”.

O homem rico em ideias pensa em construir um carro: (455)

tolo! Não sabe que um carro se faz com cem tábuas,

e que antes vem o cuidado de juntá-las em casa.

 

Quando a estação da semeadura aparece

pela primeira vez aos mortais,

lançai-vos ao trabalho, tu mesmo e os servos,

arando a terra seca ou úmida no tempo da semeadura, (460)

muito esforçando-te logo de manhã, para que

teus campos fiquem abundantes.

 

Ara na primavera, mas a terra arada de novo no verão não te decepcionará.

Semeia a terra de pousio quando o solo ainda está solto:

a terra de pousio protege contra a morte e tranquiliza as crianças.

Ora a Zeus ctônio e a Deméter pura: (465)

que o trigo santo de Deméter amadureça pesado;

ora logo no início da semeadura, quando, o cabo da rabiça

tomando na mão, deres com a vara nas costas dos bois

que puxam a cavilha do jugo com a correia. Um pouco atrás,

o servo, segurando o enxadão, imponha sofrimento aos pássaros (470)

encobrindo as sementes, pois uma boa organização é o melhor

para os humanos perecíveis, e uma má organização é o pior.

Assim as espigas maduras vão se inclinar para o chão,

se depois um bom resultado o próprio Olímpio conceder;

tu tirarás as teias de aranha dos potes, e espero (475)

que te alegrarás ao tomares dos recursos que estão dentro.

Chegarás em boa situação à primavera de céu claro, e sobre os outros não

fixarás teu olhar, mas um outro homem terá de ti necessidade.

Mas se apenas no solstício de inverno arares a terra divina,

agachado farás a colheita pegando pouco com a mão, (480)

atando um feixe ao contrário do outro, coberto de poeira

e sem grande alegria.

 

Vais levá-los embora num cesto, e poucos olharão para ti.

Mas o desígnio de Zeus porta-égide é diferente em tempos diferentes,

e é difícil de conhecer para os homens mortais.

Se arares mais tarde, eis aqui para ti um remédio: (485)

quando o cuco nas folhas do carvalho diz cuco

pela primeira vez, e agrada aos mortais sobre a terra imensurável,

no terceiro dia possa Zeus chover continuamente,

sem contudo cobrir os cascos do boi nem deixá-los de todo à mostra:

assim o que ara tardiamente pode se igualar ao que o faz cedo. (490)

Observa bem isso tudo no teu espírito, e não te esqueças

nem da chegada da primavera brilhante nem da estação das chuvas.

 

Passa direto pela forja e pelo abrigo quente

no tempo do inverno, quando o frio mantém os homens longe dos trabalhos:

então um homem ativo pode aumentar muito seus bens, (495)

para que a Incerteza do duro inverno não te alcance

com a Indigência, nem apertes o pé inchado com a mão franzina.

O homem ocioso, vivendo para esperança vã,

carente de sustento, medita muitas maldades.

A esperança não é boa para cuidar de um homem necessitado (500)

sentado no abrigo, sem bastante sustento.

Mostra aos servos, quando o verão ainda está na metade:

“não será verão para sempre; fazei vossas cabanas”.

 

O mês Lenáion, de maus dias, todos para esfolar gado,

evita-o, e também às geadas, que sobre a terra (505)

são impiedosas quando sopra o Bóreas,

que, pela Trácia nutriz de cavalos, por sobre o largo mar

soprando o agita, e mugem a terra e a floresta;

e sobre muitos carvalhos de altas frondes e grossos abetos

nas ravinas ele cai e traz ao chão, à terra que muitos nutre, (510)

e então toda a floresta imensa ressoa;

os animais tremem e põem o rabo entre as pernas:

sua pele é coberta de pelos, mas agora

o frio Bóreas sopra através deles, mesmo sendo de peito cabeludo.

Ele também atravessa o couro do boi – (515)

este não o consegue parar –,

sopra através da cabra de longos pelos, mas não através das ovelhas:

porque é espesso o seu pelo, não as atravessa

o forte sopro do Bóreas. Este faz o velho correr,

mas não sopra através da virgem de pele macia,

que fica dentro de casa junto à mãe querida, (520)

sem conhecer ainda os trabalhos da multidourada Afrodite;

lavando bem a pele delicada e com azeite brilhante

a ungindo, vai dormir bem no interior da casa

num dia invernal, quando o sem-osso rói seu pé

em sua casa sem fogo, deplorável morada, (525)

pois o sol não lhe mostra um lugar de pasto aonde correr,

mas sobre o país e a cidade dos homens negros

vai e vem, e brilha mais lentamente para os gregos.

E então os animais com chifres e sem chifres que dormem nos bosques,

rangendo os dentes tristemente, para os matagais das ravinas (530)

fogem; ocupam-se do mesmo em seu coração todos

que, desejando um abrigo, têm esconderijo bem fechado

numa gruta rochosa. Então, semelhantes a um mortal de três pés,

as costas curvadas e a cara voltada para o chão,

semelhantes a ele vêm e vão, evitando a neve branca.

(535) Então usa uma proteção para a pele, como te ordeno:

um manto macio e uma túnica até os pés;

tece abundante trama em espaçada urdidura.

Cobre-te com isso, para que teus pelos não tremam

nem fiquem de pé, arrepiados, levantados por sobre o corpo. (540)

Aos pés ata calçados de couro de um boi abatido,

bem ajustados, revestidos com feltro no interior.

Peles de cabritos recém-nascidos, toda vez que o tempo frio chegar,

costura com tendão de boi, para que nas costas

jogues um abrigo para chuva. Sobre a cabeça (545)

tem um chapéu bem-feito, para que não encharques as orelhas,

pois a aurora é fria depois que sopra o Bóreas,

e na aurora, do céu estrelado para a terra

se espalha uma névoa sobre os trabalhos férteis dos bem-aventurados;

ela, buscando água nos rios sempre-correntes, (550)

levada acima da terra por uma tempestade de vento,

às vezes chove à tarde, às vezes sopra

quando o trácio Bóreas leva densas nuvens em confusão.

Adiantando-se a ele, ao terminar o trabalho, volta para casa,

para que nunca te envolva uma nuvem escura vinda do céu, (555)

deixe tua pele molhada e encharque tuas roupas.

Evita-o, pois esse mês é o mais difícil

do inverno, difícil para os rebanhos e difícil para os humanos.

Então dá para os bois a metade, para o homem a maior parte

da ração, pois as longas noites vêm em socorro. (560)

Observando tais coisas até que o ano complete o seu ciclo,

equilibra as noites e os dias, até que novamente

a Terra mãe de todos traga fruto variegado.

Quando, depois das voltas do sol,

Zeus completa sessenta dias invernais, 46 então o astro (565)

Arcturo, deixando a corrente sagrada do Oceano,

primeiro aparece de madrugada, todo brilhante.

Depois dele, a filha de Pandíon, a andorinha que cedo lamenta, surge

à luz para os homens, estabelecida há pouco a primavera.

Adiantando-se a ela, poda as videiras, pois assim é melhor. (570)

Mas quando o carrega-casa subir da terra às plantas,

fugindo das Plêiades, então não é mais tempo de cavar vinhas;

mas afia as foices e desperta os servos.

Foge do sentar-se à sombra e do sono de manhã

no tempo da colheita, quando o sol seca a pele. (575)

Então apressa-te e leva o fruto para casa,

de pé desde a alvorada, para que tenhas bastante sustento.

Pois a aurora faz a terça parte do trabalho;

a aurora de fato faz progredir no caminho e também no trabalho,

a aurora, que aparecendo faz avançarem na estrada muitos (580)

humanos, e coloca o jugo sobre muitos bois.

Quando o cardo floresce e a cigarra sonora,

pousando numa árvore, derrama um canto claro

e constante de sob as asas, na estação do verão cansativo,

é então que as cabras são mais gordas, o vinho melhor, (585)

as mulheres mais lascivas e os homens mais fracos,

pois Sírius queima a cabeça e os joelhos,

e a pele resseca sob o calor. Mas então

é o tempo da sombra de uma rocha, um vinho biblino,

um pão da melhor farinha, leite de cabras esgotadas, (590)

carne de vaca que pastou nos bosques e ainda não pariu

e de cabritos recém-nascidos. Daí bebe o vinho ardente,

sentado à sombra, o coração satisfeito com a comida,

a face voltada para o frescor do Zéfiro.

De límpida fonte corrente sempre a fluir

serve três partes de água para uma de vinho.

Exorta os servos a debulhar o trigo santo de Deméter

quando primeiro aparecer a força de Órion,

em lugar bem ventilado e numa eira arredondada.

Medindo o trigo, em cestos leva-o com cuidado. Mas quando (600)

depositares todo o sustento pronto dentro de casa,

a arranjar trabalhador sem casa e procurar uma serva sem filhos

te aconselho, pois é complicada uma empregada com cria.

Cuida também de um cão de dentes afiados (não economizes na sua comida),

para que nunca um homem que dorme de dia roube tuas coisas. (605)

Leva para casa feno e palha,

o bastante para os bois e as mulas. E então

que os servos descansem os joelhos e tirem o jugo dos bois.

 

Quando Órion e Sírius chegarem ao meio

do céu e a dedirrósea Aurora vir Arcturo, (610)

ó Perses, então colhe todos os cachos de uva e leva-os para casa.

Deixa-os no sol por dez dias e dez noites,

na sombra por cinco, e no sexto derrama em jarros

o presente de Dioniso, o cheio de alegria.

Mas quando as Plêiades, as Híades e a força de Órion (615)

se põem, então é o tempo de lembrar-se da semeadura,

e que o ano esteja preparado sob a terra.

Ensinamentos sobre navegação

E se te tomar o desejo da navegação tempestuosa:

quando as Plêiades, da força poderosa de Órion

fugindo, caem no mar nebuloso, (620)

então os sopros de todos os ventos lançam-se furiosamente.

Então não mantenhas barcos no mar cor de vinho,

mas trabalha a terra, lembrando-te do que ordeno.

Puxa o barco para a terra firme e o rodeia com pedras

de todos os lados, contendo assim a fúria úmida (625)

dos ventos que sopram,

e retira o tampão do fundo do barco, para que a chuva de Zeus não o apodreça.

 

Coloca em tua casa todo o equipamento bem ajustado,

em boa ordem dobrando as asas da nau que atravessa o mar;

o timão bem trabalhado sobre a lareira suspende.

Tu próprio, espera que venha o momento certo para a navegação. (630)

Então arrasta a rápida nau para o mar, e dentro a carga

adequada dispõe, para que leves lucro para casa –

assim meu e teu pai, ó Perses, seu grande tolo,

necessitando de um bom sustento, costumava navegar em barcos.

Um dia aqui chegou, depois de cruzar muito mar, (635)

deixando a eólia Cime numa nau negra,

não para fugir à abundância, à riqueza, à prosperidade,

mas sim à pobreza má, que Zeus dá aos homens.

Veio morar perto do Hélicon, num vilarejo miserável,

Ascra, ruim no inverno, difícil no verão, nunca boa.

E tu, Perses, lembra-te dos trabalhos

todos na hora certa, sobretudo quanto à navegação.

Elogia a nau pequena, mas põe tua carga numa grande:

quanto mais carga, mais lucro sobre lucro,

se os ventos retiverem os maus sopros.

(645) Quando quiseres fugir à necessidade e à fome triste

voltando o louco espírito para o mercado,

mostrarei a ti as medidas do mar de altos bramidos,

eu que nem sou instruído em navegação ou em navios.

Na verdade eu nunca naveguei sobre o largo mar, (650)

a não ser para Eubeia partindo de Áulis, onde uma vez os Aqueus,

esperando o fim do inverno, reuniram um grande exército

da Hélade sagrada para ir a Troia de belas mulheres.

De lá, para os jogos do valoroso Anfidamante

eu fiz a travessia a Cálcis: muitos prêmios anunciados (655)

os filhos do herói magnânimo colocaram em jogo. E me orgulho de ali,

vencendo com um hino, ter levado uma trípode com asas,

que eu dediquei às Musas do Hélicon,

onde elas primeiro me puseram no caminho do canto claro.

Tal foi de fato minha única experiência com naus bem pregadas, (660)

mas mesmo assim direi o desígnio de Zeus porta-égide,

pois as Musas me ensinaram a cantar um hino extraordinário.

Cinquenta dias depois do solstício,

quando vai para o fim o verão, estação de cansaço,

é para os mortais a hora certa de navegar. Então a nau (665)

não quebrarás nem o mar aniquilará teus homens,

se de propósito Posídon abalador da terra

ou Zeus rei dos imortais não os quiser destruir,

pois com eles está igualmente o fim das coisas boas e das más.

Então as brisas estão regulares e o mar propício; (670)

tu, seguro, confiando nos ventos, a rápida nau

arrasta até o mar e coloca nela toda a tua carga.

Esforça-te para voltar para casa o mais rápido possível:

não esperes o vinho novo e a chuva do fim do verão,

o inverno que vem a seguir e os temíveis sopros do Noto, (675)

que levanta o mar, acompanhando a chuva de Zeus

abundante no fim do verão, e torna o mar difícil.

Existe uma outra navegação para os humanos: a da primavera.

Logo que o tamanho da pegada que a gralha faz andando

parecer aos homens igual ao das folhas (680)

na ponta de um ramo de figueira, então o mar é navegável.

Essa é a navegação da primavera; quanto a mim,

não a recomendo; não me agrada em meu coração.

É um instante para agarrar; dificilmente fugirias ao mal; mas até isso

os humanos realizam, mentes ignaras:

pois a propriedade é o sopro da vida para os infelizes mortais.

E é horrível morrer entre as ondas. Mas te aconselho

a pensar sobre tudo isso em teu coração, conforme te digo.

Não coloques todo o teu sustento em côncavas naus,

mas deixa a maior parte e carrega a menor,

pois é terrível encontrar a desgraça entre as ondas do mar,

e é terrível, se colocas fardo excessivo no carro,

quebrar o eixo e a carga se estragar.

Observa a medida: o oportuno é em tudo o melhor. (690)

Outros conselhos sobre relações sociais

No tempo certo desposa uma mulher, (695)

quando faltarem não muitos anos para alcançares os trinta,

ou sem ultrapassares muito essa idade: é o casamento no tempo certo.

A mulher, na puberdade por quatro anos, deve se casar no quinto.

Desposa uma virgem, para que lhe ensines sábios costumes;

{de preferência casa-te com uma mulher que mora perto de ti,} (700)

olhando bem tudo à volta: não desposes um motivo

de riso para os vizinhos.

Pois um homem não consegue nada melhor que uma mulher

boa, mas não há coisa mais horrível que uma má,

à espreita de jantares, que ao homem, mesmo sendo vigoroso,

assa-o sem chama e entrega à velhice prematura. (705)

{Observa bem o olhar dos imortais bem-aventurados.}

 

Não trata um amigo como um irmão,

mas, se o fizeres, não sejas o primeiro a agir mal com ele,

nem uses linguagem mentirosa. E se ele começar,

falando ou agindo de modo odioso, (710)

lembra-te de dar punição duas vezes maior. Mas se de novo

procurar a tua amizade, e quiser oferecer reparação,

aceita: bem miserável o homem que a cada momento muda de amigos:

que em nada a tua intenção desminta a tua aparência.

Não te chamem homem de muitos hóspedes ou (715)

de nenhum hóspede,

nem companheiro dos maus ou alguém em rixa com os bons.

Nunca a pobreza maldita, corruptora do coração, a um homem

ouses censurar, pois é coisa dada pelos bem-aventurados eternos.

O maior tesouro entre os humanos é uma língua

econômica; o maior favor encontra uma língua que fala na medida. (720)

Se disseres algo mau, rapidamente algo pior ouvirás.

Não sejas rabugento num banquete com muitos convidados:

com despesas repartidas o prazer é maior e o gasto menor.

Conselhos sobre religião ; práticas a serem evitadas

Nunca na aurora faças libações de vinho ardente a Zeus

sem lavar as mãos, nem a outros imortais,

pois assim não te ouvem, e cospem de volta tuas orações.

Evita mijar de pé voltado para o sol,

e lembra-te, desde o ocaso até o amanhecer,

de não urinar no caminho nem fora dele ao caminhares,

nem completamente nu: as noites pertencem aos bem-aventurados. (730)

Agachado o faz quem é homem religioso, conhecedor do que é sábio,

ou aproximando-se do muro de um pátio bem cercado.

E não apareças com os genitais salpicados de esperma

perto do altar da casa, mas evita-o.

Nem depois de voltar de um funeral (mau agouro!) (735)

concebas prole, mas vindo de um banquete dos deuses.

Nunca a água que corre bela dos rios sempre-fluentes

atravesses a pé antes de rezares olhando para a bela corrente,

tendo lavado as mãos com água límpida, tão amável.

Quem atravessa um rio sem lavar sua maldade e suas mãos, (740)

com ele os deuses se indignam e depois lhe dão dores.

Nem cortes do galho de cinco ramos, no rico banquete dos deuses,

o seco do verde com o ferro ardente.

E nunca coloques o jarro de verter vinho sobre a cratera

dos que estão bebendo, pois destino funesto a isso se liga. (745)

Fazendo uma casa, não a deixes com saliências,

para que uma gralha gritadora não pouse no teu teto a grasnar.

Nem tomes de caldeirões não consagrados

para comeres ou te lavares, já que nisso também há castigo.

Nem ponhas sentado sobre invioláveis (pois não é vantagem) (750)

um menino de doze dias – deixa um homem sem virilidade –,

nem um de doze meses: ocorre o mesmo.

Com a água do banho de uma mulher não se lave

um homem: também a isso liga-se, por um tempo, triste

castigo. Nem te deparando com sacrifício a queimar (755)

critiques os ritos: também com isso o deus fica irado.

Nunca nas águas dos rios que correm para o mar

nem em fontes urines: evita-o completamente.

Nem ali evacues: isso não é aconselhável.

Faz assim; e foge ao terrível rumor dos mortais, (760)

pois o rumor é mau, rápido para se criar

com grande facilidade, penoso para suportar, difícil de deixar de lado.

Nenhum rumor se destrói completamente quando muita

gente o divulga: é que também ele é um deus.

Os dias

Os dias vindos de Zeus observa bem conforme (765)

o lote de cada um,

e mostra-os aos servos: o dia trinta do mês é o melhor

para supervisionar os trabalhos e distribuir o alimento,

quando o povo julga corretamente ao celebrá-lo.

Estes dias vêm da parte de Zeus sábio:

para começar, são dias sagrados o primeiro, o quatro, o sete (770)

(pois neste Leto deu à luz Apolo de espada de ouro),

o oito e o nove. Dois dias do mês

crescente são superiores para aprontar os trabalhos dos mortais:

o dia onze e o doze, e ambos são bons

para tosar ovelhas e colher o fruto benévolo, (775)

mas o doze é muito melhor que o onze,

pois nele tece os fios a aranha que voa no alto

ao meio-dia, quando a que sabe junta a sua pilha.

Que nesse dia a mulher coloque de pé o tear e se entregue ao trabalho.

No dia treze depois do início do mês evita (780)

começar a semeadura; mas ele é o melhor para transplantar mudas.

O seis do meio é muito nocivo para as plantas,

mas bom para nascerem meninos. Já para uma menina não é conveniente,

nem para nascer nem para contrair núpcias.

Nem o primeiro seis é adequado para uma menina nascer, (785)

mas sim para castrar cabritos e carneiros,

e para fazer o cercado das ovelhas é um dia favorável.

É bom para um menino nascer: mas poderá amar troças,

mentiras, palavras sedutoras e companhias secretas.

No dia oito do mês, o javali e o boi de mugido sonoro (790)

castra, e as mulas trabalhadeiras no dia doze.

No grande vinte, em pleno dia, homem sábio

nasce: será em verdade de inteligência bem consistente.

O dez é bom para menino nascer, e para menina o quatro

do meio. Neste, doma ovelhas, bois de chifres recurvos (795)

e andar ondulante,

o cão de dentes afiados e as mulas trabalhadeiras,

colocando sobre eles a mão. Tem em mente

evitar o dia quatro do fim do mês e do início

para devorar o espírito com dores: é dia inteiramente sagrado.

E no quatro do mês leva para casa uma esposa, (800)

tomando às aves os melhores auspícios para essa empresa.

Evita os dias cinco, pois são difíceis e terríveis:

pois dizem que no cinco as Erínias cuidaram

do Juramento recém-nascido, que a Luta deu à luz

como punição dos perjuros.

O sete do meio é para joeirar o trigo santo de Deméter (805)

na eira arredondada, olhando com cuidado;

que nele o lenhador corte madeira para o quarto de dormir

e muitas tábuas para os navios, que se adaptem bem a uma nau;

e no dia quatro começa a pregar barcos estreitos.

O nove do meio é melhor à tarde, (810)

mas o primeiro nove é todo ele inofensivo para os humanos.

Na verdade ele é bom para plantar e para nascer,

tanto para homem quanto para mulher. Nunca é um dia de todo mau.

Por outro lado, poucos sabem que o três-nove do mês é ótimo

para começar um jarro 65 e colocar o jugo no pescoço (815)

dos bois, mulas e cavalos de pés rápidos,

e para a rápida nau de muitos bancos para o mar cor de vinho

puxar, e poucos o chamam pelo seu nome verdadeiro.

Abre o jarro no quatro – entre todos dia sagrado –,

no do meio. E poucos sabem que o vinte e um do mês é excelente (820)

depois da aurora: à tarde é pior.

Esses dias são para os que habitam sobre a terra um grande proveito;

outros dias são de presságios mutáveis, são privados de destino, nada trazem,

e cada um louva um dia, mas poucos conhecem.

Às vezes um dia é madrasta, às vezes mãe. (825)

Feliz quanto aos dias e próspero aquele que, isso tudo

sabendo, trabalhar sem ofender os deuses,

tomando às aves auspícios e evitando transgressões.

 

Extraído apenas o texto sem notas e comentários de Rolim de Moura, que apresenta interessantes análises sobre o livro, sua datação, autoria e documentos fonte, além da versão em grego utilizada. Os títulos acrescidos ao texto aparecem alinhados à esquerda para facilitar a leitura da tradução. As indicações de numeração de versos (entre parênteses) podem conter ainda alguma correção necessária, posto que a diagramação do material abaixo não está concluída.

Hesíodo. Os trabalhos e os dias / Hesíodo ; edição, tradução, introdução e notas: Alessandro Rolim de Moura. – Curitiba, PR : Segesta, 2012.

 

 

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